quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Cristianismo Equilibrado John R. W. Stott






Editora: CPAD



 
Conteúdo:


Unidade, Liberdade e Caridade

Minha preocupação é chamar a atenção para uma das grandes tragédias da cristandade contemporânea, que é especialmente visível no meio de todos nós que somos chamados (e, na verdade, é como nós nos chamamos) cristãos evangélicos. Numa única palavra: essa tragédia chama-se polarização. Serei mais específico sobre o que quero dizer.
O pano de fundo para a tragédia é a nossa substancial concordância no histórico cristianismo bíblico. Nossa união nos fundamentos da fé cristã é coisa grande e gloriosa. Cremos em Deus Pai, infinito e pessoal, santo, criador e sustentador do Universo. Cremos em Jesus Cristo, o único Deus-homem; em seu nascimento virginal , em sua vida encarnada, na autoridade do seu ensino, em sua morte expiatória, na sua ressurreição histórica, e em seu retorno pessoal á terra. Cremos no Espírito Santo por cuja inspiração especial as Escrituras foram escritas e por cuja graça pecadores são hoje justificados e nascidos de novo, transformados na imagem de Cristo, incorporados à Igreja e enviados para servir no mundo. Nestas e em outras grandes doutrinas bíblicas, permanecemos firmes pela graça de Deus, e permanecemos juntos.
Contudo, nós não somos unidos. Nós nos separamos uns dos outros por assuntos pouco importantes. Algumas das questões que nos dividem são teológicas; outras temperamentais. Teologicamente, por exemplo, podemos discordar na relação exata entre soberania divina e responsabilidade humana, na”ordem”  e ministério pastoral da igreja (se deve ser episcopal, presbiteriano ou independente) e até onde os crentes podem envolver-se numa “mistura” denominacional sem que se comprometam a si mesmos e a fé que  professam; nas relações Igreja-Estado; em quem está qualificado para ser  batizado e no volume de água a ser usado; em como interpretar profecia, em  quais dons espirituais estão disponíveis hoje e quais são os mais importantes.  Estas são algumas das questões nas quais crentes igualmente dedicados e  bíblicos discordam entre si. São questões que os reformadores chamam de  “adiaforia”, questões “indiferentes”. Desta forma, embora pretendemos  continuar defendendo nossa própria convicção das Escrituras, em  conformidade com a luz que nos tem sido dada, procuraremos não pressionar dogmaticamente a consciência de outros crentes, mas tratar a cada um com  liberdade, em amor e respeito mútuo. Não se pode fazer coisa melhor do que  mencionar o famoso epigrama atribuído a um certo Rupert Meldenius e citado  por Richard Baxter. Em coisas essenciais, unidade; nas não-essenciais, liberdade; em todas as coisas, caridade.
Estamos, também, separados uns dos outros temporariamente.
Esquecemo-nos , às vezes , que Deus ama a diversidade e tem criado uma rica  profusão de tipos humanos, temperamentos e personalidades. Além disso, o nosso temperamento tem mais influência na nossa teologia do que geralmente  imaginamos ou admitimos. Embora a nossa compreensão da verdade bíblica  dependa da iluminação do Espírito Santo, ela é inevitavelmente colorida pelo  tipo de pessoa que somos, pela época na qual vivemos e pela cultura a que  pertencemos. Alguns de nós, por disposição e formação, são mais intelectuais  que emocionais; outros, mais emocionais que intelectuais. Repetindo, a  disposição mental de muitos é conservadora (detestam mudanças e sentem-se  ameaçados), enquanto outros são, por natureza, rebeldes à tradição (o que eles detestam é monotonia, considerando mudança como algo próprio de sua natureza). Questões como estas surgem de diferenças temperamentais básicas.  Porém, não devemos permitir que o nosso temperamento nos controle. Pelo  contrário, devemos deixar que as Escrituras julguem nossas inclinações  naturais de temperamento. Caso contrário, acabaremos por perder o nosso  equilíbrio cristão.
O título deste ensaio é “Cristianismo Equilibrado”, pois uma das  maiores fraquezas que os cristãos (especialmente os evangélicos) manifestam  é a tendência para o extremismo ou desequilíbrio. Parece que não existe outro  passatempo de que Satanás mais goste do que o de tirar o equilíbrio dos  crentes. Embora eu não reivindique qualquer amizade pessoal com ele e nem  tampouco qualquer conhecimento íntimo da sua estratégia, suponho ser este  um dos seus hobbis favoritos.
Por “falta de equilíbrio”, entendemos o deleite que sentimos em habitar  em uma ou outra das regiões extremas da verdade. Se pudéssemos apoiar-nos  em ambos os pólos, simultaneamente, exibiríamos um saudável equilíbrio  bíblico. Em lugar disto, tendemos a “cair em extremos”. Como
Abraão e Ló,  nos separamos uns dos outros. Empurramos outras pessoas para um pólo,  enquanto que o pólo oposto é mantido como nossa propriedade.
Teologicamente falando, ninguém na história da igreja britânica nos  preveniu melhor deste perigo do que Charles Simeon, professor do King’s  College e pároco da igreja Holy Trinity, em Cambridge, no início do século  passado. Considere esta conversa imaginária com o apóstolo Paulo, que ele  incluiu numa carta para um amigo em 1825. “A verdade não está no meio e  nem no extremo, mas nos dois extremos. Aqui estão dois extremos:  calvinismo e armenianismo. - Paulo, como te situas em relação a eles? No  meio-termo intermediário? - Não. - Nos extremos? - Não. - Como então? -  Nos dois extremos: hoje eu sou um calvinista convicto: amanhã, um convicto  armeniano. - Bem, bem, Paulo, compreendo a tua esperteza: vai a Aristóteles  e aprende o meio termo intermediário!
Simeon continua: - “Mas, meu irmão, eu sou um desventurado. Primeiramente li Aristóteles e gostei muito; mas, desde que comecei a ler  Paulo, tenho captado algo de seus estranhos conceitos, oscilações (não  vacilações) de um pólo para o outro. Às vezes, sou um poderoso calvinista e,  outras, um débil armeniano. Desta forma, se extremos te deleitarem, sou a  pessoa certa para ti; lembra-te somente: não é para um extremo que devemos  ir, mas para ambos”- um adágio que Charles Smyth descreveu como “tão  naturalmente desconcertante para a mente inglesa”(Memoirs of the Life of the  Ver. Charles Simeon, editado por Willian Carus 1847, p. 600. Simeon and  Church Order por Charles Smyth, 1940, p. 185).
As palavras de Simeon são sabedoria para hoje. Sejam nossas polarizações basicamente teológicas ou temperamentais, devemos evitá-las.  Meu irmão, permita-me dar quatro exemplos da inutilidade de polarizações  desnecessárias, o que será feito nos capítulos seguintes.

INTELECTO E EMOÇÃO

O primeiro exemplo situa-se no campo do intelectual e do emocional.  Alguns crentes são tão friamente intelectuais que se questiona serem eles  mamíferos de sangue quente, para não dizer seres humanos, ao passo que  outros são tão emocionais que se deseja saber se são possuidores de uma  porção mínima de massa cinzenta. Eu me sinto constrangido a dizer que o mais perigoso dos dois extremos é o anteintelectualismo de depois a entrega ao emocionalismo. Vemos isto em algumas pregações evangelísticas, que não consistem em outra coisa senão em um apelo para decisão com pouquíssima, ou nenhuma pregação do evangelho e pouca, ou nenhuma, argumentação com o povo a respeito das Escrituras, à maneira dos apóstolos.
A mesma tendência é evidente na atual busca de experiências emocionais, vividas de primeira mão, e na exaltação da experiência como critério da verdade, ao passo que a verdade deveria ser sempre o critério da  experiência. O meu receio é que esta tendência seja um legado  semicristianizado do existencialismo secular. O que parece Ter filtrado na  consciência pública da famosa distinção de Martin Heidegger entre existência  “autêntica” e “inautêntica” é que devemos abandonar cada convenção e  disciplina e cada estilo de vida imposto que ameace a nossa autenticidade  pessoal.
Devemos, acima de tudo, escolher que seremos nós mesmos, pensando  e fazendo somente o que nos pareça ser autêntico no momento. À luz deste  princípio, tenho ouvido jovens crentes argumentando assim:
“Ninguém pode  esperar que eu creia numa doutrina só porque está nas Escrituras; só crerei se  a doutrina autenticar-se a mim como verdadeira. Você não pode esperar que  eu vá à igreja, que leia a Bíblia ou que ore só porque estes são deveres  cristãos; eu somente posso fazer estas coisas se sentir vontade. E eu não  posso, possivelmente,  amar o meu próximo (para não dizer o inimigo) só  porque sou ordenado a fazer isto, mas somente se o Espírito Santo produzir  um relacionamento de amor com o próximo, autêntico e real”.
Ao lado da corrente insistência na experiência existencial, segue uma  desconfiança, um menosprezo ou intelecto. A fuga da razão é um sinal  distintivo da vida secular contemporânea (pelo menos é assim nos Estados  Unidos). O professor Richar Hofstadter documentou isto muito bem em seu  livro “Anti-intelellectualism in American Life” (Antiintelectualismo na vida  americana) (Vintage, 1962). E um impressionante exemplo, recente, pode ser  encontrado em Joe McGinness, quando, sob o título “The Selling of the  President 1968” (A Venda do Presidente, 1968), ele relata a campanha  eleitoral de Richard Nixon, em 1968. Os organizadores da campanha ficaram  convencidos de que Nixon perdera a eleição para Kennedy, em 1960, porque  Kennedy tinha uma imagem televisiva bem melhor que a de Nixton. Então,  consultaram Marshall McLuham para orientá-los em como fazer com que Nixon se “projetasse eletronicamente”, e como transformá-lo de “um  advogado seco e sem graça” em um “ser humano afetuoso e animado”.  “Política”- o professor MacLuham assegurou-lhes - “é apenas uma ciência  racional”.
“Eleições”- insistiu - “não são ganhas na bancada eleitoral apresentada, mas nas imagens. “Faça os eleitores gostarem da cara do sujeito”  e a campanha está virtualmente ganha”.
Esta é, naturalmente, uma situação séria, quando uma nação desenvolvida é, então, levada a abdicar de sua responsabilidade política,  deixar de debater os assuntos do dia ou formar sua opinião e votar, não pelo  que os candidatos são, mas pelo que vulgarmente é chamado de reação  “instintiva” aos candidatos. Porém , este tipo de antiintelectualismo é muito  mais sério na igreja evangélica, pois a Palavra de Deus ensina que a nossa  razão é parte da imagem divina na qual Deus nos criou. Ele é o Deus racional que nos fez seres racionais e nos deu uma revelação racional. Negar nossa  racionalidade é, portanto, negar nossa humanidade, vindo a ser menos do que  seres humanos. As Escrituras proíbem que nos comportemos como cavalos e  mulas que são “sem entendimento”, e ao contrário, ordenam que sejamos “maduros” em nosso entendimento” Sl. 32:9, I Co. 14:20. De fato, a Bíblia  nos diz constantemente que cada área da vida cristã é dependente do uso  cristão de nossas mentes. Permita-me dar um exemplo: o exercício da fé.  Muitos acham a fé e inteiramente irracional. Mas as escrituras nunca  colocam fé e razão uma contra a outra, como sendo incompatíveis.
Pelo  contrário, fé somente pode nascer e crescer em nós pelo uso de nossas mentes:  “em ti confiarão os que conhecem o teu nome” (Sl 9:10); a confiança deles  brota do conhecimento da fidelidade do caráter de Deus. Novamente, em  Isaías 26:3: “Tu conservarás em paz aquele cuja mente está firme em ti,  porque ele confia em ti”. Aqui, confiar em Deus e manter a mente em Deus  são sinônimos e uma perfeita paz é o resultado.
À luz desta ênfase bíblica a respeito do lugar da mente na vida cristã, o  que é que devemos dizer para a geração moderna dos antiintelectuais, os  emocionais? Sinto muito ter de dizer que eles estão se autoproclamando  intensamente, como sendo crentes mundanos.
Pois “mundanismo” não é  apenas uma questão (como fui ensinado a acreditar) de fumar, beber e dançar,  nem tampouco aquela velha questão sobre embelezar-se, ir a cinemas, usar  minissaias, mas o espírito do século. Se absorvemos sem qualquer exame os  caprichos do mundo (neste caso, o existencialismo), sem que primeiro  sujeitemos isto a uma rigorosa avaliação bíblica, já nos tornamos crentes  mundanos.
“Temos como princípio fundamental”, disse Wesley para um dos seus  primeiros críticos, “que renunciar o uso da razão é renunciar à religião, que  “religião e razão seguem de mãos dadas” e que “toda religião irracional é  falsa religião”(citado por R.W. Burtner, R. E. Chiles em “A Compend of  Wesley’s Theology”, 1954, p. 26).
Sinto-me na obrigação de acrescentar, contudo, que se o antiintelectualismo é perigoso, a polarização oposta é quase igualmente perigosa. Um hiperintelectualismo árido e sem vida, uma preocupação exclusiva com ortodoxia não é cristianismo do Novo Testamento. Não há dúvida de que os crentes primitivos eram profundamente motivados pela experiência de Jesus Cristo. Se o apóstolo Paulo pode escrever sobre a “excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor”, e o apóstolo Pedro pode dizer que os crentes “alegram-se com gozo inefável e glorioso” (Fp. 3:8; I Pedro 1:8), ninguém pode facilmente acusá-los de tristonhos ou insensíveis.
A verdade é que Deus nos fez criaturas, tanto emocionais, como racionais. Não somos apenas mamíferos de sangue quente, mas seres humanos, capazes de sentimentos profundos de amor e de ira, de compaixão e  de temor. Escrevo sobre isto com convicção pessoal, pois, de alguma forma,  diverge da educação que recebi em escola particular da Inglaterra. Não tenho  a menor intenção de morder a mão que me alimentou, pois reconheço o  quanto devo aos privilégios educacionais que me foram concedidos. Contudo,  sinto-me crítico daquela característica distintiva da tradição da escola  particular, conhecida como “o lábio superior rígido”.
Visto que o primeiro sinal externo de profunda emoção interna é geralmente o tremor do lábio superior, mantê-lo rígido é reprimir as emoções  e cultivar as virtudes (mais masculino que feminino, mais anglo-saxão que  latino) de coragem, vigor e autocontrole. O que não poderia acontecer era um  rapaz chorar em público; choramingo era reservado às moças e crianças.  Desde aqueles dias de pré-guerra, contudo, tenho lido o Novo Testamento  muitas vezes e descoberto que Jesus não teve o acanhamento de demonstrar  suas emoções. Em duas ocasiões diferentes somos informados de que Ele, na  realidade, caiu em prantos em público, primeiro ao lado do túmulo de um  amigo e, depois, na impenitente Jerusalém. Neste caso, então, Jesus não foi  educado no mesmo sistema, da escola particular britânica!
Se é um perigo negar nosso intelecto, é um perigo também negar nossas  emoções. Mesmo assim, é o que muitos de nós estamos fazendo.
Alvin Toffer  escreve sobre alguns jovens americanos que estão exibindo os sintomas do  que ele chama de “choque do futuro”. Ele se refere a uma pequena aldeia  marítima em Creta, cujas 40 ou 50 cavernas estão ocupadas por “trogloditas  americanos, desertores”: rapazes e moças que, na maior parte, desistiram de  fazer qualquer esforço maior para enfrentar a alta velocidade explosiva das  complexidades da vida. Um repórter visitou-os em 1968 e comunicou-lhes a  notícia do assassinato de Robert F. Kennedy. Resposta: silêncio: “Nenhum  choque, nenhuma emoção, nenhuma lágrima!” É este o novo fenômeno:  Desertores dos Estados Unidos e desertores das emoções. Eu compreendo o não-envolvimento, o desencanto e, mesmo o não-comprometimento. Porém, para onde foi todo o sentimento?” (Future Shock, Pan Books 1971, p.331).
Pamela Hansford Johnson, que fez a reportagem dos horrores sádicos  dos assassinatos dos “Moors”, escreveu que assassinos por lucro ou  gratificação são quase sempre destituídos daquilo que os psicólogos chamam  de “comoção” - capacidade de penetrar nos sentimentos dos outros; e  continuou dizendo: “corremos o risco de criar uma sociedade sem qualquer  comoção, na qual ninguém se preocupe com o ouro, senão consigo mesmo, ou  com outra coisa que não auto-satisfaça instantâneamente.
Procuramos sexo sem  amor, violência por “prazer”. Estamos encorajando o entorpecimento da sensibilidade...” (On Iniquity, McMillan 1967, pp. 18 e 24).
Uma das causas da insensibilidade da nossa sociedade é a televisão,  pois ela traz para os nossos lares, numa seqüência que nunca pára, cenas de  violência, brutalidade e tragédia que assaltam tão poderosamente nossas  emoções de maneira tal que não conseguimos suportar. Fazemos, então, duas  coisas: ou nos levantamos e desligamos o aparelho, ou fazemos pior:  permitimos que a imagem continue a brilhar na tela, mas desligamos o nosso  interior do que está sendo mostrado.
Continuamos assistindo, mas sem nos  envolver emocionalmente.
Talvez eu possa dar um exemplo pessoal, desta vez não a respeito da  televisão, mas de um concerto da peça “O Messias”, de Handel, no Royal  Albert Hall. Quando o concerto atingiu seu clímax com o coro Aleluia, com a  afirmações majestosas de que “o Senhor Deus onipotente reina... Rei dos reis  e Senhor dos senhores” e com o “Amém “final, confesso que fiquei  profundamente comovido. Quando os músicos pararam, a audiência explodiu  num estrondo de aplausos, que foi uma maneira perfeitamente apropriada de  expressar sua apreciação pelo maestro, coro, orquestra e solistas. Mas, então,  à medida que os aplausos se extinguiam, todos começaram a pegar seus  chapéus e casacos, a rir, a conversar e a empurrarem-se ao se dirigirem para  as portas de saída.
Será presunção minha dizer que eu não podia mover-me?  Eu tinha sido transportado para o Céu, para a eternidade, para a presença do  próprio grande Rei. Não foi suficiente para mim aplaudir os músicos; eu quis curvar a cabeça e adorar a Deus. Sou eu estranho ao reagir com tão profunda  emoção religiosa? Ou será que estou certo ao perguntar o que estão as pessoas  fazendo com suas emoções a ponto de ouvir um concerto ou ir a um culto e  permanecer insensíveis? Eu não estou questionando por emocionalismo, pois  é uma exibição artificial, uma pretensão espúria. Mas emoções, sentimentos  genuínos surgidos legitimamente que devem ser expressados, e não  sufocados.
Qual, então, a verdadeira relação entre o intelecto e a emoção?
Muhammed Iqbal, o jurisconsulto e poeta, que se tornou presidente da Liga  Muçulmana, que preparou o caminho para um Paquistão independente e que  trabalhou por um novo entendimento entre o Oriente e o Ocidente, escreveu  em um dos seus poemas:
“No Ocidente, intelectos é a fonte da vida.
No Oriente, amor é a base da vida.”
Através do amor, intelecto cresce familiarizado com a realidade.

“Intelecto dá estabilidade ao trabalho do amor.
Levantai e lançai os fundamentos de um novo mundo.
Enlaçando intelecto ao amor”.

Isto está perfeitamente certo. Porém, o intelecto não é prerrogativa do  Ocidente, nem o amor (ou emoção), do Oriente. Algumas nações ou raças  podem verdadeiramente ter mais de intelecto e outras mais de emoção, mas  intelecto e emoção não podem estar restritos a alguns temperamentos ou  algumas culturas, pois ambos são parte de toda a humanidade que Deus criou.  Ambos - intelecto e emoção - pertencem à autêntica experiência humana.
Em particular, nada coloca o coração tão em fogo como a verdade.
A verdade não é fria e seca. Pelo contrário, é cheia de calor e paixão, e em  qualquer que seja o momento em que novas perspectivas da verdade de Deus  surgem diante de nós, não podemos ser apenas contemplativos.
Somos  movidos a responder, seja em penitência, ira, amor, ou adoração.
Pense nos  dois discípulos a caminho de Emaús; na primeira páscoa, á tarde, quando o  Senhor ressuscitado falava com eles. Quando Ele desapareceu, eles disseram  um para o outro: “Porventura não ardia em nós o nosso coração quando, pelo  caminho, nos falava e quando nos abria as Escrituras?”(Lc. 24:32). Eles  tiveram uma experiência  emocional durante toda a tarde. Por isso,  descreveram a sensação que tiveram como um coração ardente. E qual foi a  causa do ardor espiritual? Foi Cristo, abrindo-lhes as Escrituras!
É o mesmo hoje. Sempre que lemos as Escrituras e Cristo as abre para  nós, para que captemos verdades novas, nossos corações devem arder dentro  de nós. Como F.W. Faber disse: “Teologia profunda é a melhor lenha para a  devoção, pega fogo, que é uma beleza e, uma vez acesa, queima por muito  tempo”(citado por Ralph G. Turnbull, em A Minister’s Obstacles, 1946,  Baker 1972, p. 97).
Esta combinação verdadeira de intelecto e emoção deveria ser visível,  tanto na pregação como na compreensão da Palavra de Deus.
Ninguém  expressou isto melhor do que o Dr. Martyn Lloyd Jones, que bem define o  que é pregação: “Lógica em fogo! Razão eloqüente! São contradições? ?Claro  que não! Razão acerca da verdade tem de ser poderosamente eloqüente, como  você pode verificar no caso do apóstolo Paulo e de outros. É teologia em  fogo. E uma teologia que não traz fogo (eu afirmo), é uma teologia  defeituosa. Pregação é teologia vinda através de um homem em  fogo” (Preaching and Preachers, Hodder & Stoughton 1971, p. 97).

TRADIÇÃO E LIBERDADE

A Segunda polarização desnecessária na igreja contemporânea  refere-se a “conservadores” e “radicais”. Devemos começar pela definição  dos termos. Por “conservador” estamo-nos referindo às pessoas que estão  determinadas a conservar ou preservar o passado e são, por isso, resistentes a  mudanças. Por “radical” referimo-nos às pessoas que estão em rebelião contra  o que é herdado do passado e estão, por isso, fazendo agitações por mudanças.
Deixai-me, agora, definir mais precisamente em que sentido cada crente  deveria ser um conservador e um radical, ao mesmo tempo: Cada crente  deveria ser conservador porque toda a Igreja é chamada por Deus para  conservar sua revelação, para “guardar o depósito” (I Tm. 6:20; II Tm 1:14),  para “batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos”, Jd 3. A tarefa da  Igreja não é continuar inventando novos evangelhos, novas teologias, novas  moralidades e novos cristianismos, mas, antes, ser uma guardiã fiel do único  Evangelho eterno, pois a auto-revelação de Deus alcançou sua consumação no  seu Filho Jesus Cristo e no testemunho apostólico de Cristo, preservado no  Novo Testamento. Isto não pode ser alterado de forma alguma: É imutável em  verdade e autoridade.
Os quatro autores do livro “Growing into Union” (Crescendo em União)  expressaram este ponto com vigor: “A primeira tarefa da Igreja é manter as  boas-novas intactas. É melhor falar do hábito mental que esta vocação requer  como “conservacionista” do que como “conservador”, pois a Segunda palavra  pode facilmente sugerir uma tendência antiquária: por ser antigo, por ser  velho, e uma resistência cega ao pensamento novo, e não é absolutamente a  respeito disso que estamos falando.
Antiquarianismo e obscurantismo são  vícios da mente cristã, mas conservadorismo está entre as suas virtudes”  (SPCK 1970, p. 103).
Alguns crentes, contudo, não limitam o conservantismo deles à teologia  bíblica que professam. O fato é que são conservadores por natureza. Eles são  conservadores na política e na perspectiva social, no estilo de vida, no estilo  de vestir, no estilo de cortar o cabelo, no estilo da barba, em qualquer outro  tipo de estilo que se mencione.
Não estão apenas atolados na lama, a lama  deles endureceu como concreto. Mudança de qualquer tipo é anátema para  eles. São como o duque inglês, o qual teria dito durante seus dias de estudante  na Universidade de Cambridge: “Qualquer mudança , em qualquer tempo e  por qualquer razão, deve ser deplorada!” O slogan favorito é: “Como foi no princípio, é agora e será para sempre. Amém!”
Um “radical”, por outro lado, é alguém que faz perguntas grosseiras  sobre as tradições estabelecidas. Ele não considera qualquer tradição,  qualquer convenção e qualquer instituição (ainda que antiga) como sendo  sacrossanta. Ele não reverencia “vaca sagrada” alguma. Pelo contrário, está  preparado para submeter qualquer coisa herdada do passado ao escrutínio  crítico. E seu escrutínio geralmente leva-o a querer reformas, até mesmo  revolução (embora, sendo um crente, opte pela não-violência).
Um radical reconhece a rapidez com que a cena do mundo está mudando hoje. Ele não se sente ameaçado por isto, nem é seu primeiro instinto comportar-se como o rei Canute e tentar prender a mudança da maré  crescente. Alvin Toffer define “choque do futuro”, a expressão que ele  inventou, como paralelo a “choque cultural”, nestes termos: “choque do  futuro é a desorientação vertiginosa produzida pela chegada prematura do  futuro. Pode bem ser a mais importante moléstia de amanhã...” (p.19). Mas o  radical não fica chocado com isto. Sabendo que mudanças são inevitáveis, ele  dá-lhes as boas-vindas e se ajusta para a chegada de qualquer mudança. E até  mesmo a inicia.
Parece então à primeira vista, que conservadores e radicais estão em  oposição e que não podemos fazer outra coisa senão polarizar nesta questão.  Mas não é bem assim. Não é bem entendido que nosso Senhor Jesus Cristo foi  conciliatoriamente um conservador e um radical, embora em esferas  diferentes. Não existe a menor dúvida de que ele foi um conservador em sua  atitude para com as Escrituras. As Escrituras não podem ser anuladas, “nem  um jota ou um til se omitirá da lei, sem que tudo seja cumprido”, (Jo. 10:17;  Mt. 5:17,18). Uma das principais queixas de Jesus contra os líderes judeus da  sua época referia-se ao desrespeito por parte deles pelas Escrituras do Velho  Testamento e à falta de uma verdadeira submissão à sua autoridade divina.
Mas Jesus pode também ser verdadeiramente descrito como um radical.  Ele foi um crítico mordaz e destemido do tradicionalismo judeu, não somente  devido à insuficiente lealdade que havia para com a Palavra de Deus, mas,  também, devido à lealdade exagerada às próprias tradições humanas. Jesus  teve a temeridade de lançar fora séculos de tradições que tinham sido  herdadas, “as tradições dos anciãos”, para que a Palavra de Deus pudesse ser  apreciada e novamente obedecida. (Mc. 7:1-13). Ele foi, também, muito  ousado nas violações das convenções sociais. Insistiu em preocupar-se com  todas as áreas da comunidade que eram normalmente menosprezadas: falou  com mulheres em público, o que não era aceito nos seus dias, convidou crianças para que viessem a Ele, embora na sociedade romana crianças rejeitadas fossem geralmente “abandonadas” ou deixadas ao relento, o que  levou os discípulos a acharem que ele não gostaria de ser incomodado por  elas. Ele permitiu que prostitutas o tocassem (os fariseus afastavam-se delas horrorizados) e Ele mesmo, na realidade, tocou num leproso intocável (os fariseus apedrejavam-nos para que fossem mantidos à distância). Destas e de  outras maneiras, Jesus recusou-se a ser preso por costumes humanos: sua  mente e consciência estavam presas unicamente à Palavra de Deus.
Por  conseguinte, Jesus foi uma combinação única do conservador e do radical:  conservador em relação às Escrituras, e radical no eu escrutínio (seu  escrutínio bíblico) de todas as outras coisas.
Ora, o discípulo não está acima do seu mestre, como Jesus freqüentemente dizia. Portanto, se Jesus pode combinar conservadorismo e radicalismo, assim podemos nós, que afirmamos segui-lo. Verdadeiramente, devemos fazê-lo, se formos leais a Ele. Há uma necessidade urgente para que mais “C Rs “surgem na Igreja; agora, não mais representando as iniciais para  católicos romanos, mas para conservadores radicais. É uma necessidade que  cristãos evangélicos desenvolvam um discernimento mais crítico entre o que  não é possível ser modificado e o que pode, e mesmo deve ser.
Deixai-me dar um exemplo do que não é possível ser modificado:
Era  costume, nos dias passados, ter o Pai Nosso, os Dez Mandamentos e o Credo  dos Apóstolos pintados na parede leste de muitas igrejas inglesas, para ser  visto e lido por todos. Na igreja de uma vila, as letras tinham ficado  desbotadas e um pintor desenhista foi contratado para retocá-las. Na ocasião  oportuna (assim a estória é contada), o conselho da igreja ficou alarmado com  a conta que lhe foi apresentada.
Acontecendo isso antes da implantação do  sistema decimal, a conta foi lida como segue:
Pela reparação do Pai Nosso 10 s.
Pelos três Mandamentos novos 12s.
Por ter feito um Credo completamente novo 17s 6d.
Por outro lado, embora tenhamos autoridade para alterar o Credo ou os  Mandamentos que Deus tem revelado, todavia (como Leighton Ford disse  corretamente, em 1959, no Congresso Americano sobre Evangelismo, em  Minneápolis) “Deus não está preso ao inglês do século dezessete, nem aos  hinos do século dezoito, nem á arquitetura do século dezenove, nem aos  clichês do século vinte”, nem (alguém pode adicionar) a muitas outras coisas.  Embora Ele mesmo nunca mude, nem tampouco sua revelação, Ele é,  também, o Deus que age, chamando sempre o seu povo para empreendimentos novos e venturosos.
Mais particularmente, todos nós necessitamos discernir com clareza  entre Escrituras e cultura. As Escrituras são a Palavra de Deus eterna e  imutável, mas cultura é uma mistura de tradição eclesiástica, convenção social  e criatividade artística. Seja qual for a “autoridade” que a cultura possa ter, ela  é derivada da Igreja e da comunidade, não podendo exigir uma imunidade ao  cristianismo ou reforma. Pelo contrário, cultura muda de época para época e  de lugar para lugar. Além do mais, nós crentes, que dizemos desejar viver sob  a autoridade da Palavra de Deus, deveríamos submeter nossa cultura  contemporânea a um contínuo escrutínio bíblico. Longe de ressentirmo-nos  com a mudança cultural ou de resistirmos a ela, deveríamos estar na linha de  frente, junto aqueles que trabalham por uma modificação progressiva, para  fazer com que a mudança realmente expresse, cada vez mais, a dignidade do homem e seja mais agradável ao Deus que os criou. Numa recente visita aos Estados Unidos, fiquei impressionado com um grupo  de estudantes que encontrei em Trinity Evangelical Divinity Shooll, em  Deerfield, llinois. Eles pertenciam aos mais diversos grupos, mas achavam-se unidos no compromisso para com o cristianismo bíblico, no desencanto  com muito do cristianismo americano contemporâneo e na determinação de descobrir uma aplicação radical do cristianismo bíblico aos grandes assuntos  do dia. De modo que eles se reuniam num grupo de estudo e oração, do qual  surgiu a coligação Cristã do Povo (The People’s Christian Coalition), cujo  órgão oficial é o “The Post-American”. O primeiro número publicado em  fevereiro de 1971 tinha uma representação do Senhor Jesus na primeira folha,  coroado com espinhos, manietado e envolto com as estrelas e listas da  bandeira americana. Muitos pensaram que o retrato fazia paralelo com a  blasfêmia. Mas eu não compartilhei com a mesma reação. Pelo contrário,  achei que foi uma expressão genuína que eles tinham pela honra de Cristo.  Jim Wallis publicou no seu editorial: “A ofensa da religião estabelecida é a  proclamação e a prática de uma caricatura de cristianismo inculturado,  domesticado e sem vida, que nossa geração fácil e naturalmente rejeita. Nós  achamos que a igreja americana está cativa dos valores e estilo de vida da nossa cultura. O cativeiro da igreja americana tem resultado na desastrosa  equação: a maneira americana de vida somada à maneira cristã de vida”.
Exatamente o mesmo poderia ser dito da expressão cultural do cristianismo em outras partes do mundo. Este é um dos principais problemas  em muitas igrejas do Terceiro Mundo, que foram estabelecidas por missões da  Europa e da América do Norte, e estão agora procurando suas próprias  identidades indígenas. Estas igrejas confrontam-se com dois problemas  culturais. O primeiro diz respeito à cultura nativa ou tribal, talvez  especialmente na África. Os líderes nacionais reconhecem que alguns  costumes africanos tradicionais refletem a origem pagã e são incompatíveis  com a fé, amor e justiça cristã. O segundo problema diz respeito à cultura  estrangeira (seja européia ou americana) que, muito freqüentemente, foi  importada para o Terceiro Mundo com o Evangelho. É, em parte, porque esta  invasão cultural tem parecido para muitos como uma afronta à própria  dignidade nacional, é que muitos deles chegaram ao “fora com a religião do  homem branco”. Naturalmente, o clamor está errado. Cristianismo não  pertence ao homem branco e, nem  tampouco, a qualquer outro grupo de  homens. Jesus Cristo é Senhor de todas as raças, países e épocas, sem  qualquer discriminação. Contudo, é certo para os africanos, asiáticos e latinos  americanos procurar desenvolver suas próprias expressões indígenas da  verdade cristã. Nesse sentido, o Dr. René Padilha fez um apelo eloqüente no  Congresso Internacional sobre Evangelização Mundial, em Lausanne, em  julho de 1974, quando atacou o que chamou de “cristianismo cultural”.
Por conseguinte, líderes cristãos de igrejas jovens necessitam de grande  sabedoria para discernir não apenas entre cultura nacional e cultura  importada, mas, também, entre o que em ambas as culturas é honrável a  Cristo e o que não é; o que tem valor e o que não tem. Eles precisam, também,  coragem para reter uma coisa e rejeitar a outra.
O cristianismo europeu cujas raízes alcançam, aproximadamente, 2000  anos, está, também, profundamente enraizado na cultura dos séculos. Não é  sem sentido que podemos falar sobre luteranismo, anglicanismo,  presbiterianismo, metodismo e, mesmo, irmanismo. Cada um deles é uma  forma tradicional ou cultural do cristianismo histórico que colore não somente  nossos formulários doutrinários, mas nossa liturgia (ou falta de liturgia) e  música; o formato e a decoração dos nossos templos, nossos métodos  pastorais e evangelísticos, e tudo o que fazemos como igreja. Tudo isto deve  ser submetido à investigação bíblica regular e crítica.
Portanto, quando resistimos a mudanças - sejam elas na igreja ou na  sociedade devemos perguntar-nos se são, na realidade, as Escrituras que estamos defendendo (como é nosso costume insistir ardorosamente) ou, se ao  contrário, é alguma tradição apreciada pelos anciãos eclesiásticos ou de nossa  herança cultural. Isto não quer dizer que todas as tradições, simplesmente por  serem tradicionais, devam a qualquer custo ser lançadas fora. Iconoclasmo  sem crítica é tão estúpido quanto conservantismo em crítica, e é algumas  vezes mais perigoso. O que eu estou enfatizando é que nenhuma tradição  pode ser investida com uma espécie de imunidade diplomática à examinação.  Nenhum privilégio especial pode ser-lhe reivindicado.
Quando, por outro lado, clamamos por mudanças, devemos estar certos  de que não é contra as Escrituras que estamos nos rebelando, mas contra  alguma tradição não-bíblica, que é portanto, aberta à reforma.
Se é “não-bíblica” no sentido de ser claramente contrária às Escrituras, então devemos  atacar o assunto corajosamente e trabalhar muito para sua abolição. Se é “não- bíblica” no sentido de não ser requerida pelas Escrituras, então devemos  mantê-la sob revisão crítica.
Mas freqüentemente do que a maioria de nós sabe ou procura admitir,  nós revestimos nossas idéias e costumes culturais com uma autoridade,  verdade e imutabilidade que somente pertencem às Escrituras. Mas são parte  da nossa segurança. Quando são ameaçados, nós nos sentimos ameaçados  também. Assim, evitamos qualquer risco e lutamos vigorosamente para  defender essas coisas, às quais nos agarramos.
Outras vezes, nós nos posicionamos por demais fracamente em relação  às Escrituras e tratamos a Palavra de Deus como se pudéssemos colocá-la de  lado tão facilmente quanto o fazemos com as opiniões e tradições humanas.  Por conseguinte, provamos que somos cristãos mundanos, que têm a tal ponto  absorvido a onda antiautoritária do mundo que nem mesmo estamos  preparados para viver sob a autoridade de Deus e de Sua Palavra, pela qual  ele governa o seu povo.
Os crentes contemporâneos são chamados para andar nesta corda apertada. Nós não devemos resistir às mudanças totais. Além disso, mesmo em questões abertas à mudança, devido à liberdade dada pelas Escrituras, não  devemos ser inconoclastas. Crentes que crêem no deus da história e na  atividade do Espírito Santo no decorrer da história da Igreja, não podem  deleitar-se com mudanças, simplesmente por mudar. Algumas vezes, como  Jesus disse, “melhor é o velho “ (Lc. 5:39), porque tem agüentado a prova do  tempo. Devemos, também, ser sensíveis ao conservantismo dos crentes de  gerações mais antigas; eles não puderam adaptar-se com facilidade a  mudanças, mas foram mais facilmente feridos e perturbados por isso. Somos  chamados para um sábio discernimento; instruídos por uma perspectiva  bíblica, para que sejamos apreciadores do legado do passado e responsáveis  pela disposição do presente. Somente então poderemos aplicar para toda a  cultura (na Igreja e na sociedade) um cristianismo bíblico radical e procurar o  que nós cremos que poderia ser mudado para melhor, sob a orientação de  Deus.
Os nossos reformadores da igreja da Inglaterra do século dezesseis  entenderam bem este princípio, pelo menos na sua aplicação à reforma  eclesiástica. Na pequena impressão do Livro de Oração comum há um  prefácio intitulado “Das Cerimônias”, que explica porque algumas são abolidas e outras retidas. Isto foi incluído no primeiro Livro de Oração reformado de 1549, que foi provavelmente composto pelo próprio arcebispo Crammer. Ele considera que, “neste nosso tempo, as mentes dos homens são tão diferentes que alguns pensam que é um grande problema de consciência abandonar, por menor que seja, as cerimônias, pois eles estão presos aos costumes antigos, mas, por outro lado, alguns são tão modernos que inovariam todas as coisas e, assim, desprezariam as antigas, de maneira que  somente o que é novo lhes é favorável’. Similarmente ao prefácio, que explica  os princípios que regeram a revisão do “Livro de Oração” em 1662, começa:  “Tem sido sábia por parte da igreja da Inglaterra, desde a primeira  compilação da Liturgia Pública, manter um equilíbrio entre os dois extremos,  de rigidez demasiada em recusar, e de facilidade demasiada em admitir,  qualquer alteração disto. “Possa Deus dar-nos esta mesma sabedoria hoje e,  também, dar-nos a coragem de aplicá-la não somente para os assuntos  eclesiásticos, mas também nos assuntos sociais, éticos e políticos!
Talvez eu poderia expressar-me em termos biológicos para dizer que  nós necessitamos de moscas varejistas cristãs para aferroar-nos e impelir-nos  a agir em busca de mudanças e, também de cães de guarda cristãos que  latirão, alta e longamente, se mostramos qualquer sinal de comprometimento  da verdade bíblica. Nenhum dos dois, moscas varejistas e cães de guarda, são  companhias fáceis de se conviver com eles, nem tampouco acham eles a  companhia um do outro compatível. Contudo, as moscas varejistas não devem  picar os cães de guarda, nem devem os cães de guarda comer as moscas  varejistas. Eles devem aprender a coexistir na Igreja de Deus e a executarem  seus papéis ao concentrar a atenção em nós, a maioria do povo de Deus, que,  desesperadamente, necessitamos do ministério de ambos.
Tendo advertido sobre os perigos de mudanças demasiadas ou de nenhuma, concluo este capítulo dizendo que o perigo maior (pelo menos entre  os evangélicos) é confundir cultura com Escrituras, ser conservador e  tradicionalista demais, estar cego a todas as coisas, na Igreja e na sociedade,  que desagradam a Deus e que deveriam, portanto, desagradar-nos, ter os pés  enterrados no status quo e resistir firmemente à mais desconfortável de todas  as experiências: MUDANÇAS.

EVANGELISMO E AÇÃO SOCIAL

Eu mudo, agora, da polarização entre o conservador e o radical, para a  do estruturado e o não-estruturado. As estruturas seculares estão  desmoronando em todos os lugares. Há uma rebelião mundial contra formas  institucionais rígidas e um sentimento universal à procura de liberdade e  flexibilidade. A igreja cristã, considerada em muitas parte do mundo como  uma das principais estruturas do tradicionalismo, não pode escapar a este  desafio de nossos tempos. Além disso, o desafio vem tanto de dentro como de  fora. Muitos jovens crentes estão requerendo um novo e não-estruturado tipo  de cristianismo, despojado dos obstáculos eclesiásticos que tem sido herdados  do passado.
Permita-me classificar as três expressões principais desta onda.
Referem-se à igreja e seu ministério, à direção de cultos públicos, e ao  relacionamento com os outros crentes. É perigoso generalizar.
Todavia,  alguém pode dizer, em primeiro lugar, que muitos estão procurando igrejas  que não tenham cerimônia fixa. Grupos de crentes estão, agora, libertando-se  em muitas partes do mundo, libertando-se da tradição e fazendo as coisas à  sua maneira.
Em segundo lugar, há um desejo por cultos informais, nos quais  o ministro não mais domina, mas onde a participação da congregação é  incentivada, onde o órgão é substituído pelo violão e uma liturgia antiga, pela  linguagem de hoje, onde há mais liberdade e menos formalidade, mais  espontaneidade e menos rigidez.
Em terceiro lugar, há uma rejeição de  denominacionalismo e uma nova ênfase bastante corrente em cortar os laços  que os prendem ao passado e mesmo a outras igrejas do presente. Eles querem  chamar-se “crentes” mas sem qualquer rótulo denominacional.
Sem dúvida, estas três exigências tem alguma lógica. Elas são fortemente sentidas e poderosamente manifestadas. Não podemos simplesmente considerá-las como irresponsabilidades loucas do jovem. Há uma ampla busca para o livre , o flexível, o espontâneo, o não-estruturado. A  geração dos crentes mais velhos e tradicionais precisa entender isso, ser  solidária e acompanhar, na medida do possível, o que está acontecendo.  Todos nós concordamos em que o Espírito Santo pode ser (e às vezes tem  sido) aprisionado em nossas estruturas e sufocado por nossas formalidades.  Contudo, há algo a ser dito em relação ao outro extremo. Liberdade não é  sinônimo de anarquia.
Que argumento pode ser apresentado, então, em favor  de alguns tipos de cerimônias e estruturas?
Primeiro: uma igreja estruturada. Os crentes pertencem a diferentes  origens denominacionais e apreciam tradições diferentes.
Contudo, a maioria  (talvez todos nós) concorda em que o Fundador da Igreja tencionou que ela  tivesse uma estrutura visível.
Verdadeiramente, a Igreja tem o seu aspecto  invisível, em que somente, “o Senhor conhece os que são seus”, (II Tm. 2:19).  Mas não podemos refugiar-nos na doutrina da invisibilidade da Igreja  verdadeira para negar que Jesus Cristo tinha em mente que seu povo fosse  visto e conhecido como tal. Ele mesmo insistiu no batismo como a cerimônia  de iniciação na sua Igreja, e batismo é um ato visível e público. Ele também  instituiu sua ceia como a refeição da comunhão cristã, pela qual a Igreja  identifica a si mesma e exercita disciplina sobre os membros.
Além disto, Ele  consagrou pastores para alimentar o seu rebanho.
Portanto, sempre que você  tiver batismo, a ceia do Senhor e um pastorado, ou, em termos tradicionais,  um ministério e ordenanças, você tem estrutura. Pode ser que seja mais  simples e mais flexível do que em muitas denominações históricas, mas  continua uma estrutura clara e definida. De mais a mais, seu valor pode ser  fortemente discutido em termos de Ter-se um ministério e ordenanças que  sejam reciprocamente reconhecidos pelas diferentes igrejas.
Segundo: adoração formal. Em particular, sou completamente a favor  da adoração espontânea, exuberante, alegre e barulhenta do jovem, ainda que,  algumas vezes, possa ser doloroso, como experimentei uma vez, em Beirute,  quando o meu ouvido direito estava a apenas algumas polegadas do trombone.  Alguns de nossos cultos são por demais formais, sérios e maçantes. Ao  mesmo tempo, em algumas reuniões modernas, a quase total noção de  reverência perturba-me. Parece que alguns acham que a principal evidência da  presença do Espírito Santo é o barulho.
Temos nos esquecido de que uma  pomba é tanto um emblema do Espírito quanto o vento e o fogo? Quando Ele  visita o seu povo em poder, às vezes, traz quietude, silêncio, reverência e  temor. Sua voz mansa e delicada é ouvida. Homens curvam-se maravilhados  diante da majestade do Deus vivo e o adoram: “O Senhor está no seu santo  templo; cale-se diante dele toda a terra!”. Eu não estou sugerindo que  reverência e formalidades sigam sempre juntas, pois reuniões informais  podem também ser reverentes, ao passo que cultos formais podem ter  seriedade e beleza sem ter uma verdadeira reverência espiritual. Mas onde  seriedade e reverência são encontradas em conjunto, a adoração oferecida é bastante agradável a Deus.
Terceiro: um princípio de conexão. A maioria de nós desejaria insistir em, pelo menos, um certo grau de independência para a igreja local que, em  conformidade com o Novo Testamento, é uma manifestação local e visível da  Igreja universal. E a igreja local (não apenas a igreja universal), é chamada o  templo de Deus e o corpo de Cristo: a igreja local: (I Co. 3:16; 12:27 ) e a  igreja universal: (Ef. 2:19-22; 4:14-16). Contudo, é possível levar este  princípio da autonomia da igreja local longe demais e, virtualmente, ignorar  todos os crentes do passado e do presente. Quando isto acontece, a igreja local  tem-se tornado tão auto-suficiente que menospreza a Igreja de Deus no tempo  e no espaço. Precisamos, portanto, lembrar-nos de certas verdades bíblicas que o povo cristão (especialmente o jovem) tende a esquecer. Estão eles interessados somente no presente? Estão eles, a geração de agora, fazendo eco  ao famoso dito de Henry Ford que “história – discurso insincero”? Às vezes  parece que sim. Mas, em que tipo de Deus crêem eles? Pois o Deus da Bíblia  é o Deus da história, o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, de Moisés e dos  profetas, dos apóstolos e da Igreja apostólica, que cumpre seus propósitos  através dos séculos. Se Deus é o Senhor da história, como podemos nós  ignorá-la ou não nos interessar por ela? Ele é, também, o Deus de toda a  igreja. A unidade da Igreja é derivada da unidade de Deus. E porque há um só  Pai, há uma só família, e um só Senhor, há uma só fé, uma só esperança e um  só batismo; e porque há um só Espírito, há somente um corpo: (Ef. 4:4-6).  Portanto, toda a questão do relacionamento com outros crentes é controversa e complicada, e certamente as Escrituras não nos dão autoridade para procurar  ou assegurar unidade sem verdade. Mas não nos dá, tampouco, autoridade para buscar a verdade sem unidade.  Independência é conveniente. Mas  também o é a comunhão na fé comum que professamos.
Mais uma vez meu argumento é que não polarizemos nesta questão.
Há  um lugar necessário na Igreja de Cristo, tanto para o estruturado como para o  não-estruturado, tanto para o formal como para o informal, tanto para o sério  como para o espontâneo, tanto para a independência como para a comunhão.
A igreja primitiva apresenta-nos um exemplo saudável neste assunto.  Lemos que imediatamente depois do dia de Pentecostes, os crentes cheios do  Espírito Santo estavam “unânimes todos os dias no Templo, partindo o pão  em casa”, (At. 2:46). Assim, eles não rejeitaram imediatamente a igreja  institucional. Eles procuraram reformá-la em conformidade com o Evangelho.  E eles simplesmente complementavam as reuniões formais de oração do  Templo com reuniões em suas próprias casas. Parece-me que cada  congregação deveria incluir no programa tanto cultos mais formais na igreja  quanto reuniões informais de comunhão nos lares. Os mais antigos membros  tradicionais da igreja, que amam a liturgia, precisam experimentar a liberdade  do culto no lar, ao passo que os mais novos, que amam o barulho e a  espontaneidade, precisam experimentar a seriedade e reverência dos cultos  formais da igreja. A combinação é muito saudável!
A Quarta polarização desnecessária diz respeito às nossas responsabilidades evangelísticas e sociais. Tem sido sempre uma característica dos evangélicos ocupar-se com evangelismo. Tanto assim que  não é raro encontrarmo-nos com uma confusão de termos, como se “evangélico” e “evangelístico” significassem a mesma coisa. Na nossa ênfase  evangélica em evangelismo, temos compreensivelmente reagido contra o tão  falado “evangelho social” que substitui salvação individual por melhoramento  social e, apesar do notável testemunho da ação social dos evangélicos do  século dezenove, nós mesmos temos suspeitado de qualquer envolvimento  deste tipo. Ou, se temos sido ativos socialmente, temos tido a tendência de  concentrar-nos nas obras de filantropia (cuidando dos acidentes de uma  sociedade doente) e tomado cuidado para evitar política (as causas de uma  sociedade doente).
Algumas vezes, a polarização na igreja tem parecido ser completa, com  alguns exclusivamente preocupados com evangelismo e outros com ações  político-sociais. Como um exemplo para o primeiro, tomarei alguns grupos do  tão falado “Povo de Jesus”. Ora, estou muito longe de querer ser crítico de  todo o movimento. Contudo, uma das minhas inúmeras hesitações diz respeito  às comunidades de Jesus que parecem ter rejeitado a sociedade e se retirado  para a comunhão individual, fazendo cultos evangelísticos ocasionais, no  mundo fora da comunidade. Vernon Wishart, um ministro da Igreja Unida do  Canadá, escreveu sobre o Povo de Jesus em Novembro de 1972, num artigo  da revista “Observer”, órgão oficial da sua igreja. Ele descreveu o movimento como “uma reação ao profundo mal-estar cultural e social” e uma tentativa  para “vencer uma depressão do espírito humano” causada pela tecnocracia  materialista. Mostrou-se admirador do genuíno zelo cristão por eles  manifestado: “Como crentes primitivos, eles simplesmente vivem de uma  maneira amorosa, estudando as Escrituras, partindo o pão juntos e  compartilhando os recursos’. E ele reconheceu que o intenso relacionamento  pessoal deles com Jesus, e de um para com o outro era um antídoto à  despersonalização da sociedade moderna. Ao mesmo tempo, ele viu este  perigo: “Voltar-se para Jesus pode ser uma tentativa desesperada de desviar- se do mundo no qual ele encarnou. Como as drogas, a religião de Jesus pode  ser uma fuga de nossa tecnocultura”. Nesta última frase, Vernon Wishart  colocou o dedo no problema principal: Se Jesus amou o mundo de tal maneira  que entrou nele através da encarnação, como podem seus seguidores  proclamar que amam o mundo procurando escapar dele? Sir Frederick  Catherwood escreveu: “Procurar melhorar a sociedade não é mundanismo,  mas amor.
Lavar as mãos da sociedade não é amor, mas mundanismo” (Is  Revolution Charnge?, editado por Brian Griffths, IVP, 1972, p. 35).
A polarização oposta parece ter sido evidente na Assembléia da Comissão do Conselho Mundial de Igrejas sobre Missão e Evangelismo Mundial, realizada em Bangkok, em janeiro de 1973. Por ter sido intitulada  “Salvação hoje”, muitos tiveram a esperança de que uma definição nova de  salvação surgiria, quer seria tanto fiel às Escrituras como relevante para o  mundo moderno. Porém, ficamos decepcionados: Os documentos preparatórios  e a própria conferência tentaram redefinir salvação em termos quase  inteiramente sociais, econômicos e políticos. É verdade que houve  referências à salvação pessoal do pecado e que o propósito da convocação  para uma moratória de dez anos no envio de dinheiro e pessoal missionário  para as igrejas do Terceiro Mundo foi ajudá-las a tornarem-se auto- suficientes.
Contudo, a impressão geral de Bangkoki é que o labor  missionário e evangelístico estão sem apoio nos círculos ecumênicos , ao  passo que a missão real da igreja, segundo o Conselho Mundial de Igrejas , é identificar-se com os atuais movimentos de libertação: “Nos vemos as lutas  por justiça econômica, liberdade política e renovação cultural como os  elementos da libertação total do mundo, através da missão de Deus  “(Bangkok Assembly 1973, p. 89).
Destes dois extremos, a falha característica dos evangélicos encontra-se  mais na primeira que na Segunda polarização. Nós certamente não estamos  confundindo justiça com salvação, mas temos freqüentemente falado e nos  comportado como se pensássemos que nossa única responsabilidade cristã  para com uma sociedade não convertida fosse evangelismo, a proclamação  das boas-novas de salvação. Nos últimos anos, contudo, tem havido bons  sinais de mudança. Temos ficado desiludidos com a mentalidade da “tentativa  abandonada” com a tendência de escolher não participar da responsabilidade  social e com a tradicional obsessão fundamentalista da “micro-ética” (a  proibição de coisas mínimas) e a negligência correspondente da “macro- ética” (os grandes problemas de raça, violência, pobreza, poluição, justiça e liberdade). Tem havido também, um recente reconhecimento dos princípios bíblicos para a ação social cristã, tanto teológica quanto ética.
Teologicamente, tem havido um redescobrimento da doutrina da criação. Tendemos a ter uma boa doutrina da redenção e uma péssima doutrina da criação. Naturalmente, temos tido uma reverência de lábios à verdade de que Deus é o Criador de todas as coisas, mas, aparentemente, temos estado cegos para as implicações disto. Nosso Deus tem sido por demais “religioso”, como se o seu principal interesse fosse cultos de adoração  e oração freqüentados por membros de igrejas. Não me entenda mal: Deus  tem prazer nas orações e louvores do seu povo. Mas, agora, começamos a vê- lo, também (como a Bíblia sempre o retratou), como o  Criador, que está  interessado tanto pelo mundo secular quanto pela Igreja, que ama a todos os  homens e não somente os crentes, e que tem interesse na vida como um todo,  e não meramente na religião.
Eticamente, há um redescobrimento da responsabilidade do amor pelo  próximo, que é o seguinte mandamento: “Amar nosso próximo como amamos  a nós mesmos”. O que isto significa na prática será determinado pela  definição das Escrituras sobre “o nosso próximo”. O nosso próximo é uma  pessoa, um ser humano, criado por Deus. E Deus não o criou como uma alma  sem corpo (para que pudéssemos amar somente sua alma), nem como um  corpo sem alma (para que pudéssemos preocupar-nos exclusivamente com  seu bem-estar físico), em tampouco um corpo-alma em isolamento (para que  pudéssemos preocupar-nos com ele somente como um indivíduo, sem nos  preocupar com a sociedade em que ele vive). Não!
Deus fez o homem um ser  espiritual, físico e social. Como ser humano, o nosso próximo pode ser  definido como “um corpo-alma em sociedade”.
Portanto, a obrigação de amar  o nosso próximo nunca pode ser reduzida para somente uma parte dele. Se  amamos nosso próximo como Deus criou (o que é mandamento para nós),  então, inevitavelmente, estaremos preocupados com o seu bem-estar total, e  bem-estar do seu corpo, da sua alma e da sua sociedade. Martin Luther King  expressou isto muito bem:
“Religião trata tanto com o Céu como com a  terra... Qualquer religião que professar estar preocupada com as almas dos  homens e não está preocupada com a pobreza que os predestina à morte, com  as condições econômicas que os estrangula e com as condições sociais que os  tornam paralíticos, é uma religião seca como poeira” (My life wih Martin  Luther King Jr. Por Coretta King, Hodder 1970, p. 127). Eu acho que  deveríamos adicionar que “uma religião seca como poeira”, é na realidade,  uma religião falsa.
É verdade que o Senhor Jesus ressurrecto deixou a Grande Comissão  para a sua Igreja: pregar, evangelizar e fazer discípulos. E esta comissão é  ainda a obrigação da Igreja. Mas a comissão não invalida o mandamento,  como se “amarás o teu próximo” tivesse sido substituído por “pregarás o  Evangelho”. Nem tampouco reinterpretar amor ao próximo em termos  exclusivamente evangelísticos. Ao contrário, enriquece o mandamento amar o  nosso próximo, ao adicionar uma dimensão nova e cristã, nomeadamente a  responsabilidade de fazer Cristo conhecido para esse nosso próximo.
Ao rogar que deveríamos evitar a escolha mais do que ingênua entre  evangelismo e ação social, eu não estou supondo que cada crente deva estar  igualmente envolvido em ambos. Isto seria impossível. Além disso, devemos  reconhecer que Deus chama pessoas diferentes e as dota com dons  apropriados à sua chamada. Certamente cada crente tem a responsabilidade de  amar e servir o próximo à medida que as oportunidades se manifestam, mas  isto não o inibirá de concentrar-se - conforme sua vocação e dons - em  alguma incumbência particular, seja alimentando o pobre, assistindo ao  enfermo, dando testemunho pessoal, evangelizando no lar, participando na  política local ou nacional, no serviço comunitário, nas relações raciais, no  ensino ou em outras boas obras.
Embora cada crente, individualmente, deva descobrir como Deus o tem  chamado e dotado, aventuro-me a sugerir que a igreja evangélica local, como  um todo, deve preocupar-se com a comunidade secular local como um todo.  Uma vez que isto seja aceito, em princípio. Crentes individuais, que  compartilham as mesmas preocupações, seriam incentivados a juntar-se em  “grupos de ação e estudo”. Não para ação sem estudo prévio, nem para estudo  sem ação conseqüente, mas para ambos. Tais grupos, com responsabilidade,  considerariam em oração um problema particular, com a intenção de agir  atacando o problema. Um grupo poderia estar preocupado com o evangelismo  num novo conjunto habitacional, no qual (até onde é conhecido) não mora  nenhum crente, ou com uma seção particular da comunidade local - uma  república para estudantes, uma prisão, estudantes recém-formados etc. Um  outro grupo poderia dedicar-se aos problemas dos imigrantes e das relações raciais, de uma favela de área e de habitações deficientes, de um asilo para velhos desamparados ou de um hospital; de pessoas idosas que têm pensão, mas se sentem sós, de uma clínica local de aborto, ou de uma casa de prostituição. A possível lista é quase interminável. Mas se os membros de  uma congregação local fossem compartilhar as responsabilidades evangelísticas e sociais da igreja em conformidade com seus interesses, chamadas e dons, muito trabalho construtivo poderia certamente ser feito na  comunidade.
Eu não conheço qualquer outra declaração de nossa dupla responsabilidade cristã, social e evangelística, melhor do que aquela feita pelo  Dr. W.A . Visser: “Eu creio”, disse ele, “que com respeito à grande tensão  entre a interpretação vertical do Evangelho como essencialmente preocupada  com o ato da salvação de Deus na vida dos indivíduos e a interpretação horizontal disto, como principalmente preocupada com as relações humanas  no mundo, devo fugir daquele movimento oscilatório mais do que primitivo  de ir de um extremo para o ouro. Um cristianismo que tem perdido sua  dimensão vertical tem perdido seu sal e é, não somente insípido em si mesmo,  mas sem qualquer valor para o mundo.
Mas um cristianismo que usaria a preocupação vertical como um meio  para escapar de sua responsabilidade pela vida comum do homem é uma  negação do amor de Deus pelo mundo, manifestado em Cristo. Deve tornar-se  claro que membros de igreja que de fato negam suas responsabilidades com o  necessitado em qualquer parte do mundo são tão culpados de heresias quanto  todos os que negam este ou aquele artigo da Fé”. O meu argumento neste livreto tem sido a favor de um cristianismo bíblico  equilibrado, no qual se evitam as polaridades comuns do mundo cristão - e  especialmente do mundo evangélico.
Precisamos enfatizar, tanto o intelecto como o emocional, lembrando  que nada coloca o coração em fogo como a verdade; tanto o conservador  como o radical, resolvido a conservar as Escrituras, mas a avaliar a cultura em  conformidade com a Bíblia; tanto o estruturado como o não-estruturado, pois  um pode completar o outro; e tanto o evangelístico como o social, pois  nenhum deles pode ser um substituto, uma capa ou uma desculpa para o  outro, desde que cada um sustente a si próprio como uma expressão, para o  qual Deus, o Senhor, ainda chama o seu povo. Em pelo menos nestas quatro áreas (que não são as únicas), temos uma boa  autoridade bíblica para substituir um excessivo e ingênuo “um-ou” por um  maduro “ambos-e”. Coloquemos, pois, nossos pés com confiança nos dois  pólos, simultaneamente. Não nos permitamos polarizar!
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Crer é também pensar John R. W. Stott




Crer é também pensar
John R. W. Stott

Conteúdo:
















PREFÁCIO

Ninguém deseja um cristianismo frio, triste, intelectualizado.
Mas será que isso significa que temos que evitar a todo custo o “intelectualismo”? Não é a experiência o que realmente importa, e não a doutrina? Muitos estudantes fecham suas mentes ao fecharem seus livros, convencidos de que ao intelecto compete apenas um papel secundário, se tanto, na vida cristã. Até que ponto têm eles razão? Qual é o lugar da mente na vida do cristão iluminado pelo Espírito Santo?
Tais perguntas são de vital importância prática, e afetam todos os aspectos de nossa fé. Por exemplo, até que ponto devemos apelar à razão das pessoas em nossa apresentação do evangelho? A “fé” implica em algo completamente irracional? O senso comum tem algum papel a desempenhar na conduta do cristão?
Tendo esses e outros problemas em vista, o Rev. John Stott aborda neste livreto o lugar da mente na vida cristã. explica por que o uso da mente é tão importante para o cristão, e como se aplica em aspectos práticos de sua vida. E faz um vigoroso apelo aos cristãos para mostrarem “uma devoção inflamada pela verdade”.
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CRISTIANISMO DE MENTE VAZIA

O que Paulo escreveu acerca dos judeus não crentes de seu tempo poderia ser dito, creio, com respeito a alguns crentes de hoje: “Porque lhes dou testemunho de que eles têm zelo por Deus, porém não com entendimento”. Muitos têm zelo sem conhecimento, entusiasmo sem esclarecimento. Em outras palavras, são inteligentes, mas faltam-lhes orientação.
Dou graças a Deus pelo zelo. Que jamais o conhecimento sem zelo tome o lugar do zelo sem conhecimento! O propósito de Deus inclui os dois: o zelo dirigido pelo conhecimento, e o conhecimento inflamado pelo zelo. É como ouvi certa vez o Dr. John Mackay dizer, quando era presidente do Seminário de Princeton: “A entrega sem reflexão é fanatismo em ação, mas a reflexão sem entrega é a paralisia de toda ação”.
O espírito de anti-intelectualismo é corrente hoje em dia. No mundo moderno multiplicam-se os programatistas, para os quais a primeira pergunta acerca de qualquer idéia não é: “É verdade?” mas sim: “Será que funciona?”. Os Jovens têm a tendência de ser ativistas, dedicados na defesa de uma causa, todavia nem sempre verificam com cuidado se sua causa é um fim digno de sua dedicação, ou se o modo como procedem é o melhor meio para alcançá-lo. Um universitário de Melbourne, Austrália, ao assistir a uma conferência na Suécia, soube que um movimento de protesto estudantil começara em sua própria universidade. Ele retorcia as mãos, desconsolado. “Eu devia estar lá”, desabafou, “para participar.
O protesto é contra o que?” Ele tinha zelo sem conhecimento.
Mordecai Richler , um comentarista canadense, foi muito claro a esse respeito: “O que me faz Ter medo com respeito a esta geração é o quanto ela se apóia na ignorância. Ser o desconhecimento geral continuar a crescer, algum dia alguém se levantará de um povoado por aí dizendo Ter inventado... a roda”.
Este mesmo espectro de anti-intelectualismo surge freqüentemente para perturbar a Igreja cristã. Considera a teologia com desprazer e desconfiança. Vou dar alguns exemplos.
Os católicos quase sempre têm dado uma grande ênfase no ritual e na sua correta conduta. Isso tem sido, pelo menos, uma das características tradicionais do catolicismo, embora muitos católicos contemporâneos (influenciados pelo movimento litúrgico) prefiram o ritual simples, para não dizer o austero. Observe-se que o cerimonial aparente não deve ser desprezado quando se trata de uma expressão clara e decorosa da verdade bíblica. O perigo do ritual é que facilmente se degenera em ritualismo, ou seja, numa mera celebração em que a cerimônia se torna um fim em si mesma, um substituto sem significado ao culto racional.
Por outro lado, há cristãos radicais que concentram suas energias na ação política e social. A preocupação do movimento ecumênico não é mais ecumenismo em si, ou planos de união de igrejas, ou questões de fé e disciplina; muito pelo contrário, preocupa-se com problema de dar alimento aos famintos, casa aos que não tem moradia; com o combate ao racismo, com os direitos dos oprimidos; com a promoção de programas de ajuda aos países em desenvolvimento, e com o apoio aos movimentos revolucionários do terceiro mundo. Embora as questões da violência e do envolvimento cristão na política sejam controvertidos, de uma maneira geral deve-se aceitar que luta pelo bem estar, pela dignidade e pela liberdade de todo homem, é da essência da vida cristã. Entretanto, historicamente falando, essa nova preocupação deve muito de seu ímpeto à difundida frustração de que jamais se alcançará um acordo em matéria de doutrina. O ativismo ecumênico desenvolve-se com reação à tarefa de formulação teológica, a qual não pode ser evitada, se é que as igrejas neste mundo devam ser reformadas e renovadas, para não dizer, unidas.
Grupos de cristãos pentecostais, muitos dos quais fazem da experiência o principal critério da verdade. Pondo de lado a questão da validade do que buscam e declaram, uma das características mais séria, de pelo menos alguns neo-pentecostais, é o seu declarado anti-intelectualismo.
Um dos líderes desse movimento disse recentemente, a propósito dos católicos pentecostais, que no fundo o que importa” não é a doutrina, mas a experiência”. Isso equivale a por nossa experiência subjetiva acima da verdade de Deus revelada. Outros dizem crer que Deus propositadamente dá às pessoas uma expressão inteligente a fim de evitar a passagem por suas mentes orgulhosas, que ficam assim humilhadas. Pois bem. Deus certamente humilha o orgulho dos homens, mas não despreza a mente que ele próprio criou.
Estas três ênfases - a de muitos católicos no ritual, a de radicais na ação social, e a de alguns pentecostais na experiência - são, até certo ponto, sintomas de uma só doença, o anti-intelectualismo.
São válvulas de escape para fugir à responsabilidade, dada por Deus, do uso cristão de nossas mentes.
Num enfoque negativo, eu daria como substituto este trabalho “a miséria e a ameaça do cristianismo de mente vazia”. Mais positivamente, pretendo apresentar resumidamente o lugar da mente na vida cristã. Passo a dar uma visão geral do que pretendo abordar. No segundo capítulo, a título de introdução, apresentarei alguns argumentos - tanto seculares como cristãos - a favor da importância do uso de nossas mentes. No terceiro, constituindo a tese principal, descreverei seis aspectos da vida e responsabilidade cristãs, nos quais a mente tem uma função indispensável. Concluindo , procurarei prevenir contra o extremo oposto, também perigoso, de abandonar um anti-intelectualismo superficial para cair num árido super-intelectualismo. Não estou em defesa de uma vida cristã seca, sem humor, teórica, mas sim de uma viva devoção inflamada pelo fogo da verdade. Anseio por esse equilíbrio bíblico, evitando-se os extremos do fanatismo. Apressar-me-ei em dizer que o remédio para uma visão exagerada do intelecto não é nem depreciá-lo , nem negligenciá-lo, mas mantê-lo no lugar indicado por Deus, cumprindo o papel que ele lhe deu.
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Por que os cristãos devem usar suas mentes?

A primeira razão se apresentará a todo crente que deseja ver o evangelho proclamado e Jesus Cristo reconhecido no mundo todo. Trata-se do poder do pensamento humano na concretização de ações. A História está repleta de exemplos da influência que grandes idéias exercem. Todo movimento de poder teve a sua filosofia que se apossou da mente, inflamou a imaginação e capacitou a devoção de seus seguidores. Basta pensar nos manifestos fascista e comunista do século passado, na obra “Mein Kampf” de Hitler, de um lado, e no “Das Kapital” de Marx e “Pensamentos” de Mao, do outro. A. N. Whitehead resume isso da seguinte forma: Uma grande parte do mundo é atualmente dominada por ideologias que, se não completamente falsas, são estranhas ao evangelho de Cristo. Apregoamos “conquistar” o mundo para Cristo. Mas que espécie de “conquista” temos em mente? Certamente que não uma vitória baseada na força das armas.
Nossa cruzada cristã diferencia-se completamente das vergonhosas cruzadas da Idade Média. Observemos a descrição que Paulo faz dessa batalha: “Na verdade, as armas com que combatemos não são carnais, mas têm, a serviço de Deus, o poder de destruir fortalezas. Destruímos os raciocínios presunçosos e todo poder altivo que se levanta contra o conhecimento de Deus. Tornamos cativo todo pensamento para levá-lo a obedecer a Cristo”. Esta é uma batalha de idéias, a verdade de Deus vencendo as mentiras dos homens. Será que acreditamos no poder da verdade?
Não muito tempo depois que a Rússia brutalmente reprimiu a revolta húngara de 1956, o Sr. Kruschev referiu-se ao precedente dado pelo Czar Nicolau I, que comandara combate à revolta húngara de 1848.
Num debate sobre a Hungria, travado na Assembléia Geral das Nações Unidas, Sir Leslie Munro citou as observações feitas por Kruschev e concluiu seu discurso relembrando uma declaração feita por Lord Palmerston na Casa dos  Comuns em 24 de julho de 1849, com respeito ao mesmo assunto. Palmerston tinha dito o seguinte: “As opiniões são mais fortes que os exercícios. Se fundadas na verdade  e na justiça, as opiniões ao fim prevalecerão sobre as baionetas da infantaria, os tiros da artilharia e as cartas da cavalaria”...  Deixando de lado exemplos seculares do poder do pensamento, passo  agora a abordar algumas razões, mais propriamente cristãs, pelas quais devemos fazer uso de nossas mentes. Meu argumento agora é que nas doutrinas básicas da fé cristã, doutrinas da criação, revelação, redenção e  juízo, em todas elas está implícito que o homem tem um duplo e inalienável  dever: o de pensar e o de agir de conformidade com o seu pensamento e  conhecimento.

CRIADO PARA PENSAR

Começo com a criação. Deus fez o homem à sua própria imagem, e um  dos aspectos mais nobres da semelhança de Deus no homem é a capacidade  de pensar. É verdade que todas as criaturas infra-humanas têm cérebro, alguns  rudimentos, outros mais desenvolvidos. O Sr. W.S. Anthony, do Instituto de  Psicologia Experimental de Oxford, apresentou um trabalho perante a  Associação Britânica, em setembro de 1957, no qual descreveu algumas  experiências com ratos. Ele pôs obstáculos às entradas que continham  alimento e água, frustrando-lhes as tentativas de encontrar o caminho naquele  labirinto. Descobriu que, diante do labirinto mais complicado, seus ratos  demonstraram o que ele denominou de “dúvidas intelectual primitiva”! Isso  bem pode ser verdade. Todavia, mesmo que algumas criaturas tenham  dúvidas, somente o homem tem o que a Bíblia chama de “entendimento”.
A Escritura assegura e evidencia isso a partir do momento da criação do  homem. Em Gênesis 2 e 3 vemos Deus comunicando-se com o homem de um  modo segundo o qual Ele não se comunica com os animais. Ele espera que o homem colabore consigo, consciente e inteligentemente, no cultivo e na  conservação do jardim em que o colocara , e que saiba diferenciar- tanto  racional como moralmente - entre o que lhe é permitido e o que lhe proibiu  de fazer. Ainda mais, Deus chama o homem para dar nomes aos animais,  simbolizando assim o senhorio que lhe dera sobre essas criaturas. E Deus cria  a mulher de maneira tal que o homem imediatamente a reconhece como  companheira idônea de sua vida, e então irrompe espontaneamente primeiro  poema de amor da História!
Esta racionalidade básica do homem, por criação, é admitida em toda a  Escritura. Na realidade, sobre esse fato se apóia o argumento normal que,  sendo o homem diferente dos animais, ele deve comportar-se também  diferentemente. “Não sejais como o cavalo ou a mula, sem entendimento”.  Em conseqüência, o homem é escarnecido e repreendido quando o seu  comportamento é mais bestial que humano (“eu estava embrutecido e  ignorante; era como um irracional à tua presença”), e quando a conduta de  animais é mais humana que a de alguns homens. Pois que às vezes os animais  de fato superam os homens. As formigas são mais trabalhadoras e mais  previdentes que o folgadão. Os bois e jumentos muitas vezes dão a seus donos  um reconhecimento mais obediente do que o povo Deus ao Senhor. E os  pássaros migratórios são melhores no arrependimento, já que quando partem  em migração sempre retornam, enquanto que muitos homens que se desviam  não conseguem voltar.
O tema é claro e desafiador. Há muitas semelhanças entre o homem e os animais. Mas os animais foram criados para se conduzirem por instinto, enquanto que os homens (apesar dos “behavioristas”), por escolha racional. Dessa forma os homens, ao deixarem de agir racionalmente, procedendo por instinto à semelhança dos animais, estão se contradizendo, contradizendo sua criação e sua diferenciação como seres humanos, e devem Ter vergonha de  si próprios.
De fato é verdade que a mente do homem está afetada pelas devastadoras conseqüências da Queda. A “depravação total” do homem significa que cada parte constituinte da sua humanidade foi, até certo ponto,  corrompida, inclusive sua mente, a qual a Escritura descreve como  “obscurecida”. Com efeito, quanto mais os homens reprimem a verdade de  Deus que reconhecem, mais “fúteis”, ou mesmo “insensatos” se tornam no  seu pensar. Podem declarar-se sábios, mas são tolos. A mente deles é a  “mente da carne”, a mentalidade de uma criatura decaída, e é basicamente  hostil a deus e à sua lei.
Tudo isso é verdade. Mas o fato de que a mente do homem é decaída  não nos pode servir de desculpa para batermos em retirada, passando do  pensamento à emoção, já que o lado emocional da natureza humana está  igualmente decaído. De fato, o pecado traz mais efeitos perigosos à nossa  faculdade de sentir do que à nossa faculdade de pensar, porque nossas  opiniões são mais facilmente controladas e reguladas pela verdade revelada  do que nossas experiências.
Assim, pois, apesar do estado decaído da mente humana, ainda o homem lhe é ordenado pensar e usar sua mente, na condição de criatura humana que é. Deus convida o Israel rebelde. “Vinde, pois , e arrazoemos,  diz o Senhor”. E Jesus acusou as multidões descrentes, inclusive os fariseus e  saduceus, por poderem interpretar as condições meteorológicas e preverem o tempo, mas não poderem interpretar “os sinais dos tempos” nem preverem o  julgamento de Deus. “Por que perguntou-lhes. Em outras palavras: por que  não usais os vossos cérebros? Por que não aplicais ao campo moral e  espiritual o sentido comum que empregais no físico?”
A sociedade secular, por esse mundo a fora, concorda com o ensino da Escritura acerca da racionalidade básica do homem, constituída em sua  criação e não de todo destruída na Queda. Os propagandistas podem dirigir os seus apelos promocionais aos nossos apetites mais baixos, mas eles não têm nenhuma dúvida de que temos a capacidade de distinguir entre produtos: de fato, muitas vezes até mesmo chegam a lisonjear o consumidor que  discrimina. Quando sai a primeira notícia de um crime, geralmente ela vem com a frase “o motivo ainda não foi descoberto”. Pressupõe-se, como se vê ,  que mesmo a ação criminosa tem uma motivação, seja ela qual for. E quando  nossa conduta é mais emocional do que racional, ainda assim insistimos em “racionalizá-la”. O próprio processo chamado “racionalização” é significativo. Indica que o homem de tal forma se constituiu num ser racional  que quando não tem razões para a sua conduta ele tem que inventar alguma  para se satisfazer.

PENSANDO OS PENSAMENTOS DE DEUS

Passo agora do argumento da criação para o da revelação. Os fatos  simples e gloriosos - que Deus é um Deus que se revela a si próprio, e que  Ele se revelou ao homem - demonstram a importância de nossas mentes. Pois  eu toda a revelação de Deus é racional, tanto a revelação geral na natureza  como sua revelação especial nas Escrituras e em Cristo. Consideremos a natureza. “Os céus proclamam a glória de Deus e o  firmamento anuncia as obras das suas mãos. Um dia discursa a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite. Não há linguagem, nem há  palavras, e deles não se ouve nenhum som; no entanto, por toda a terra se faz  ouvir a sua voz, e as suas palavras até aos confins do mundo”. Ou seja, Deus  fala aos homens através do universo que criou, e proclama sua glória divina,  conquanto seja uma mensagem sem palavras. A mensagem é muito clara, no  entanto, e os que rejeitam sua verdade são culpados diante de Deus. “Portanto  o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes  manifestou.
Porque os atributos invisíveis de Deus, o seu eterno poder e  também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio  do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são por isso indesculpáveis. Porquanto, tendo conhecimento de Deus  não o glorificaram como Deus...”
 Estas duas passagens referem-se à revelação que Deus faz de si mesmo através da ordem criada. Embora seja uma proclamação sem palavras, uma voz sem som, mesmo assim resulta que todo homem tem algum “conhecimento de Deus”. Está pressuposto aí que o homem tem capacidade para ler o que Deus escreveu no universo, e isso é extremamente importante. Toda a pesquisa científica apóia-se nessa pressuposição, na correspondência  entre o caráter do que está sendo investigado e a mente de quem investiga.  Essa correspondência é a racionalidade. O homem pode compreender os processos da natureza. Eles não são misteriosos; deve-se ao Criador que, tanto  nela como neles, expressou a Sua mente. Em decorrência, de acordo com as  famosas palavras de Kepler, os homens “podem pensar segundo os  pensamentos de Deus”. Essa mesma importante correspondência é ainda mais direta entre a  Bíblia e quem a lê. Pois que nela e através dela Deus tem falado, isto é, tem se  comunicado por meio de palavras. Se concordamos que na natureza a  revelação de Deus é visualizada, na Escritura é verbalizada, e em Cristo é  tanto uma coisa como a outra, pois Ele é “a Palavra que se fez carne”. Ora, a comunicação com palavras pressupõe uma mente que as possa entender e interpretar, pois as palavras não passam de símbolos sem significado a menos  que sejam decifradas por um ser inteligente.
Assim, o segundo motivo cristão pelo qual a mente humana é  importante é que o cristianismo é uma religião revelada. Creio que quem  melhor expressou esse ponto foi James Or em seu livro “The Cristian View of God and the World” A Visão Cristã de Deus e do Mundo): Se há uma religião neste mundo que dê relevância ao ensino, sem  dúvida tal religião é a de Jesus Cristo. Com freqüência já se tem destacado o  fato de que a doutrina tem uma mínima importância nas religiões não-cristãs; nelas o destaque está na realização de um ritual. Mas é precisamente nisto que o cristianismo se diferencia das demais religiões: ele tem doutrina.  Ele se apresenta aos homens com um ensinamento definido, positivo, declara-se ser a verdade; nele o conhecimento dá suporte à religião, conquanto seja um conhecimento somente acessível sob condições morais... Uma religião divorciada do pensamento diligente e elevado tem tido, através de toda a  história da igreja, a tendência de se tornar fraca, estéril e nociva; por outro  lado, o intelecto desprovido de seus direitos no âmbito da religião, tem  procurado sua satisfação fora, e desenvolvido um materialismo sem Deus. É certo que alguns chegaram à conclusão oposta. Já que o homem é  finito e decaído, argumentam, já que não pode descobrir Deus através de sua  mente, tendo Deus que se revelar por Si, então a mente não é importante.  Mas não! A doutrina cristã da revelação, ao invés de fazer da mente algo desnecessário, na verdade a torna indispensável e a coloca no seu devido lugar. Deus se revelou por intermédio de palavras às mentes humanas. Sua revelação é uma revelação racional a criaturas racionais. Nosso dever é receber sua mensagem, submetermo-nos a ela, esforçamo-nos por compreendê-la e relacionarmo-la com o mundo em que vivemos. O fato de que Deus precisa tomar a iniciativa para revelar-se a nós mostra-nos que nossas mentes são finitas e decaídas; por Ele preferir revelar-se às criancinhas, vemos que temos de nos humilhar para recebermos sua Palavra; o mero fato de que se revelou, por meio de palavras, mostra-nos que nossas mentes são capacitadas para o entendimento. Uma das mais elevadas e  mais nobres funções da mente humana é ouvir a Palavra de Deus, e assim ler  a mente de Deus e pensar conforme seus pensamentos, tanto pela natureza  como pela Escritura. Atrevo-me a dizer que quando falhamos no uso de nossas mentes e  descemos ao nível dos animais, Deus se dirige a nós , como o fez a Jó quando  o encontrou enchafurdado em auto-piedade, insensatez e lamentações  amargas: “Cinge agora os teus lombos como homem; eu te perguntarei e tu me responderás”.

MENTES RENOVADAS

Passamos agora da doutrina da revelação à doutrina da redenção, redenção realizada por Deus através da morte e ressurreição de Jesus Cristo.  Tendo Deus executado esta redenção através do seu Filho, agora a anuncia por intermédio de seus servos. De fato, a proclamação do evangelho -  também feita por palavras dirigidas às mentes humanas - é o principal meio provido por Deus para dar a salvação aos  pecadores.
Paulo assim se expressa  quanto a isso:
Visto como, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por sua  própria sabedoria, aprouve a Deus salvar aos que crêem, pela loucura da pregação”.
Note-se com cuidado o contraste que o apóstolo faz. Não é entre uma  apresentação racional e um não-racional , como se fosse o caso de Deus Ter  posto de lado por completo uma mensagem racional, em virtude da sabedoria  humana ser impotente para encontrar a Deus. Não. O que Paulo contrasta com  a sabedoria humana é a revelação divina. Mas nossa pregação é uma revelação racional, o enigma de Cristo crucificado e ressurreto. Pois conquanto as mentes dos homens estejam em trevas e seus olhos estejam  cegos, conquanto os não-regenerados não possam por si próprios receber o  compreender coisas espirituais “porque elas se discernem espiritualmente”,  nem por isso o evangelho deixa de ser levado às suas mentes, porque tal é o  meio previsto por Deus para abrir-lhes os olhos, iluminar-lhes as mentes e  salvá-los. Terei mais a dizer sobe isso ao tratar da evangelização.
Pois bem, a redenção traz consigo a reconstituição da imagem divina no  homem, a qual fora distorcida na Queda. Nessa reconstituição inclui-se a  mente. Paulo pôde descrever os convertidos do paganismo dizendo: “e vos  revestistes do novo homem, que se refaz para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou e também: “aprendestes a Cristo... no sentido  de que... vos renoveis no espírito do vosso entendimento”. Ele pode ir ainda  mais longe. Um homem “espiritual”, no qual habita o Espírito Santo e que por Ele é dirigido, tem novos poderes para o discernimento espiritual. Dele pode-se mesmo dizer que tem “a mente de Cristo”.
Esta convicção de que os cristãos têm novas mentes fez com que Paulo  apelasse confiantemente a seus líderes: falo como a criteriosos, julgai vós  mesmos o que digo”.
Ás vezes me ponho a pensar sobre de que maneira o apóstolo reagiria se hoje viesse visitar a cristandade ocidental. Acho que lamentaria a falta de  uma mente cristã nos dias de hoje, como o fez recentemente Harry Blamires.  Uma “mente cristã”, como a descreve o Sr. Blamires, é “uma mente treinada,  informada, equipada para manusear os dados de uma controvérsia secular  dentro de um quadro de referência constituído por pressuposições cristãs”, por  exemplo, pressuposições quanto ao sobrenatural, quanto à universalidade do mal, quanto à verdade, autoridade e valor da pessoa humana. O pensador  cristão, continua ele, desafia os preconceitos correntes... perturba os complacentes... se antepõe aos ativos pragmatistas... questiona as bases de  tudo que lhe diz respeito e... faz-se incômodo”. Mas, prossegue, hoje em dia parece não existir pensadores cristãos com uma mente cristã. Pelo contrário”:
“A mente cristã tem-se deixado secularizar num grau de debilidade e  de forma tão despreocupada sem paralelos na história cristã. Não é fácil achar as palavras certas para exprimir a completa perda de moral intelectual  na igreja do século vinte. Não se pode caracterizar este fato sem recorrer a  uma linguagem que parecerá ser histérica e melodramática. Não existe mais  uma mente cristã. Ainda há, certamente, uma ética cristã, uma prática cristã  e uma espiritualidade cristã... Mas na condição de um ser que pensa, o  cristão moderno já sucumbiu à secularização”.
Trata-se de uma triste negação de nossa redenção por Cristo, a respeito  de quem se diz que “se nos tornou da parte de Deus sabedoria”.

JULGADOS POR NOSSO CONHECIMENTO

A Quarta doutrina cristã na qual está implícita a importância da mente é  a doutrina do juízo de Deus. Pois um ponto é bastante claro no ensinamento  bíblico quanto ao juízo: que Deus nos julgará pelo nosso conhecimento e pela  nossa atitude em resposta (ou pela falta desta) à sua revelação.
Tomemos como um exemplo do Velho Testamento o livro de Jeremias.
Jeremias profetizou pela palavra do Senhor, com grande coragem e com uma  persistência inabalável que, a menos que o povo atendesse à voz de Deus, a  nação, a cidade e o templo seriam destruídos. Mas, em vez de atenderem, fecharam os seus ouvidos, ficaram inflexíveis , e endureceram a cerviz. Essas  são algumas frases-chaves do livro. Temos aí alguns exemplos.
Desde o dia em que vossos pais saíram da terra do Egito, até hoje,  enviei-vos todos os meus servos, os profetas, todos os dias, começando de  madrugada, eu os enviei. Mas não me deste ouvidos nem me atendestes;  endurecestes a cerviz e fizeste pior do que vossos pais.
...ordenei a vossos pais no dia em que os tirei da terra do Egito..., dizendo: Daí ouvidos à minha voz, e fazei tudo segundo o que vos mando;  assim vós me sereis a mim por povo, eu vos serei a vós por Deus... Porque  deveras advertia a vossos pais no dia em que os tirei da terra do Egito, até o  dia de hoje, testemunhando desde cedo cada dia, dizendo: Daí ouvidos à minha voz. Mas não atenderam nem inclinaram os seus ouvidos, antes  andaram cada um segundo a dureza do seu coração maligno.
Durante vinte e três anos... tem vindo a mim a palavra do Senhor, e,  começando de madrugada, eu vo-la tenho anunciado; mas vós não escutastes.  Também, começando de madrugada, vos enviou o Senhor todos os seus  servos, os profetas, mas vós não escutastes, nem inclinastes os vossos ouvidos  para ouvir...
Viraram-me as costas, e não o rosto; ainda que eu, começando de madrugada, os ensinava, eles não deram ouvidos, para receberem a advertência.
Mesmo depois de Jerusalém ter sido destruída por Nabucodozor e o  desventurado Jeremias, com relutância, Ter sido levado ao Egito, continuou  ele a advertir a seus compatriotas judeus quanto ao juízo de Deus diante da  perversidade do seu povo.
Todavia começando eu de madrugada, lhes tenho enviado os meus servos , os profetas, para lhes dizer: Não façais esta coisa abominável que  aborreço. Mas eles não obedeceram, nem inclinaram os ouvidos...
Este princípio de juízo foi endossado pelo próprio Senhor Jesus:
“Quem me rejeita e não recebe as minhas palavras tem quem o julgue; a própria palavra que tenho proferido, essa o julgará no último dia”.
E a base do argumento do apóstolo Paulo nos primeiros capítulos de  sua cata aos Romanos é que todos os homens são culpados diante de Deus precisamente porque todos possuem algum conhecimento - os judeus por  meio da lei de Deus escrita, e os gentios por meio da natureza e da lei de Deus  em seus corações - mas ninguém viveu de acordo com esse conhecimento.
É um pensamento solene o de que, com o nosso anti-intelectualismo, tanto nos oponho como não nos incomodando com o ouvir a palavra de Deus, poderemos estar preparando para nós o juízo do Deus Todo-Poderoso.
Tentei mostrar como a racionalidade humana tem uma importância fundamental nas doutrinas básicas da criação, revelação, redenção e juízo.  Deus nos constituiu como seres que pensam; Ele nos tratou como tais, comunicando-se conosco com palavras; ele nos renovou em Cristo e nos deu a mente de Cristo; e nos considerará responsáveis pelo conhecimento que temos.
Talvez se comece a ver agora o mal que é essa disposição anti-intelectualista, cultivada em alguns grupos cristãos. Não se trata de uma verdadeira devoção, absolutamente; mas sim de uma conformação a uma onda deste mundo, ou seja, trata-se de uma forma de mundanismo.
Subestimar a mente é soterrar doutrinas cristãs fundamentais. Deus nos criou  seres racionais; será justo negarmos a humanidade que Ele nos deu? Deus  conosco se comunicou; não procuraremos entender suas palavras? Deus  renovou nossa mente por intermédio de Cristo; não faremos uso dela? Deus  nos julgará por sua Palavra; não seremos prudentes, construindo nossa casa  sobre essa rocha?
Em vista dessas doutrinas, não é de se surpreender a descoberta de  quantas ênfases a Escritura - tanto no Velho como no Novo Testamento - coloca obtenção de conhecimento e sabedoria. No Antigo Testamento Deus se  queixava de que seu povo se comportava como “filhos néscios, e não  entendidos”, e declarava que “o meu povo está sendo destruído, porque lhe  falta o conhecimento”. Toda a literatura de sabedoria do Velho Testamento  lhes fora dada para enfatizar que apenas “os loucos aborrecem o conhecimento “ e que somente o sábio é na verdade feliz, pois que tendo  adquirido sabedoria, possui algo “melhor do que o ouro” e mais precioso do  que pérolas”.
De igual forma, no Novo Testamento uma boa parte das instruções dos apóstolos foi dirigida no sentido de adquirirmos a sabedoria divina,  aplicando-a numa vida santa. “Reunindo toda vossa diligência”, escreveu  Pedro, “associai com a vossa fé a virtude; com a virtude , o conhecimento...” “Expomos sabedoria entre os experimentados”, escreveu Paulo, e prosseguiu  censurando os coríntios pela imaturidade que tinham. Eram ainda como  bebês, disse, que necessitavam de leite incapazes que eram de ingerir o  alimento sólido da sabedoria do alto.
Dessa forma, o principal motivo das orações de Paulo com respeito às  jovens igrejas e seus membros era que crescessem em conhecimento e que o  Espírito Santo, o Espírito da verdade, exercesse o seu ministério entre eles e com eles.
Para os de Éfeso ele orou “que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o  Pai da glória, vos conceda espírito de sabedoria e de revelação no pleno  conhecimento dele, iluminando os olhos do vosso entendimento, para  saberdes qual é a esperança do seu chamamento, qual a riqueza da glória da  sua herança nos santos, e qual a suprema grandeza do seu poder para com os  que cremos...
“Mais adiante, nesta mesma carta, ele orou que “sejais fortalecidos com  poder, mediante seu Espírito no homem interior; e assim habite Cristo nos  vossos corações, pela fé, “Por que? Eis a razão: “estando vós arraigados e  alicerçados em amor, a fim de poderdes compreender, com todos os santos,  qual é a largura, e o comprimento , e a altura, e a profundidade , e conhecer o  amor de Cristo que excede todo entendimento , para que sejais tomados de  toda plenitude de Deus”.
Pelos filipenses, orou: “que o vosso amor aumente mais e mais em pleno conhecimento e toda a percepção, para aprovardes as coisas excelentes  e serdes sinceros e inculpáveis para o dia de Cristo, cheios de frutos de  justiça...
Pelos colocensses, orou: “que transbordeis de pleno conhecimento da sua  vontade, em toda a sabedoria e entendimento espiritual; a fim de viverdes de  modo digno do Senhor , para o seu inteiro agrado, frutificando em toda boa  obra , e crescendo no pleno conhecimento de Deus”.
A repetição dos termos conhecimento, sabedoria, percepção e entendimento é mesmo impressionante. Não resta dúvida que o apóstolo considerava tais pontos a própria base da vida cristã.

A MENTE NA VIDA CRISTÃ

Estamos agora em condições de considerar os motivos segundo os quais  Deus deseja que usemos nossas mentes. Não é o meu propósito aqui argumentar pela aquisição de conhecimento “secular” ou de “cultura”,  mas  sim tocar em seis esferas da vida cristã, cuja realização seria impossível sem o  uso adequado da mente. Examinaremos o culto cristão, a fé cristã, a santidade  cristã, a direção cristã, a evangelização cristã e o ministério cristão, nessa  ordem.

O CULTO VERDADEIRO

Gosto muito daquele caso que um ministro americano, o já falecido Dr.  Rufus M. Jones, costumava contar. Ele acreditava na importância do intelecto  na pregação. Porém um membro de sua congregação fez objeção a essa ênfase  e escreveu-lhe queixando-se:
“Quando vou à igreja”, disse em sua crítica,  “sinto-me como se tivesse desenrolando a minha cabeça e a colocando por  sob o assento , pois numa reunião religiosa não tenho necessidade alguma de  usar o que se acha acima do meu colarinho!
“Prestar culto dessa forma, sem fazer uso da mente, certamente é o que  se fazia na cidade pagã de Atenas, onde Paulo encontrou um altar dedicado  “ao deus desconhecido”. Mas essa forma de culto não serve para os cristãos.  O apóstolo não se sentira satisfeito em deixar os atenienses em sua  ignorância. Prosseguiu proclamando-lhes a natureza e as obras do Deus que  cultuavam na ignorância. Pois sabia que somente o culto inteligente é  aceitável por Deus, o culto verdadeiro, o culto prestado por aqueles que  conhecem a quem adoram, e que o amam “de todo o entendimento”.
Os salmos eram o grande hinário da igreja do Velho Testamento, e hoje  em dia ainda são cantados nos cultos cristãos. Neles temos, pois, um meio de  sabermos como deve ser o culto verdadeiro. A definição básica de culto nos  Salmos é “louvar o nome do Senhor”, ou “tributar ao Senhor a glória devida  ao eu nome”. E ao inquirirmos o que significa o seu “nome”, verificaremos  que é a soma total de tudo o que ele é e fez.
Em particular, ele é cultuado nos  Salmos tanto como o Criador do mundo como o Redentor de Israel, e os  salmistas se comprazem em adorá-lo dando uma lista enorme das obras de  Deus, relativas à criação e à redenção.
O Salmo 104, por exemplo, expressa a incontável maravilha da sabedoria e Deus em suas múltiplas obras no céu e na terra, na vida animal e  vegetal, entre as aves, os mamíferos e os “seres sem conta” existentes em  abundância nos mares e grandes oceanos.
O Salmo 105, por outro lado, exalta um outro aspecto das “obras maravilhosas” de Deus, a saber, o tratamento especial que dedicou ao povo da  sua aliança. Narra a história dos séculos, as promessas e Deus a Abraão,  Isaque e Jacó; sua providência para com José do Egito, tirando-o da prisão  para a honrosa posição de grande senhor; seus atos poderosos feitos através de  Moisés e Arão, enviando as pragas e libertando o povo; sua provisão àquela  gente no deserto e o seu poder que fez com que herdassem a terra prometida.  O Salmo 106 repete em grande parte a mesma história, mas enfoca desta vez a  paciência de Deus com o seu povo, que vivia se esquecendo de suas obras,  desobedecendo suas promessas e se rebelando contra seus mandamentos.
O Salmo 107 louva a Deus pelo seu permanente amor, que vem de encontro às necessidades de diferentes grupos de pessoas: de viajantes perdidos no deserto, de prisioneiros desfalecendo em calabouços, de enfermos  à beira da morte, de navegantes apanhados numa grande tempestade. Todos  estes “na sua angústia clamaram ao Senhor e Ele os livrou das suas  tribulações”. Assim, “rendam graças ao Senhor por sua bondade e por suas  maravilhas para com os filhos dos homens!
“Meu último exemplo é o Salmo 136. Aqui o mesmo refrão litúrgico se  repete em cada versículo: “porque a sua misericórdia dura para sempre”. E as  chamadas para render graças ao Senhor por Sua bondade começam com a Sua  criação dos céus, da terra, do sol, da lua e das estrelas, prosseguindo daí com  a Sua redenção de Israel do Egito, e com os reis amorreus, a fim de dar-lhes  Sua terra em herança.
Bastam estes exemplos para mostrar que Israel não cultuava a Deus na  forma de uma divindade distante ou abstrata, mas como o Senhor da natureza  e das nações, como alguém que se revelara através de atos concretos , criando  e mantendo o seu mundo, redimindo e preservando  o seu povo. Israel tinha  bons motivos para adorá-lo pela sua bondade, por suas obras e por “todos os  seus benefícios”.
A estes poderosos feitos de Deus (o Deus criador e o Deus da aliança),  os cristãos acrescentam o ato de Deus mais poderoso do que todos os demais:  o nascimento, a vida, a morte e a glorificação de Jesus; o seu Dom do Espírito  Santo; e a sua nova criação, a Igreja.
Esta é a história do Novo Testamento, e  é por isso que tanto os textos do Velho como do Novo Testamento, juntos,  com uma exposição bíblica, constituem hoje uma parte indispensável do culto  cristão.
Somente quando de novo ouvimos sobre o que Deus já fez encontramo-nos em condições de retribuir-lhe com a nossa adoração e o nosso culto. É  também por este motivo que a leitura e a meditação da Bíblia são uma parte  muito importante na devoção pessoal do cristão.
Todo culto cristão, seja ele  público ou pessoal, deve ser uma resposta inteligente à auto-revelação de  Deus, por suas palavras, e suas obras registradas nas Escrituras.
É neste contexto que, de passagem, se pode fazer uma referência ao  “falar em outras línguas”. Qualquer que tenha sido a glossolalia no Novo  Testamento - se um Dom de línguas estanhas ou a expressão de sons em  êxtase - o certo é que as palavras eram ininteligíveis a quem as proferia. Por  isso mesmo foi que Paulo proibiu falar em línguas em público, se não  houvesse quem traduzisse ou interpretasse; e desencorajou a sua realização ou  devoção pessoal, se a pessoa permanecesse sem entender o que dizia.  Escreveu ele: “Pelo que, o que fala em outra língua, ore para que a possa  interpretar. Porque, se eu orar em outra língua, o meu espírito ora de fato, mas  a minha mente fica infrutífera. Que farei, pois? Orarei com o espírito, mas  também orarei com a mente...
“Noutras palavras, Paulo não podia admitir nenhuma oração, nenhum  culto, em que a mente permanecesse estéril ou inativa. Ele insistiu que em  todo culto verdadeiro a mente tem de ser completamente empenhada, de  modo a dar frutos. O prazer dos coríntios para com o culto ininteligível era  algo infantil. Quanto ao mal, disse-lhes para serem como crianças e inocentes  o quanto fosse possível, mas acrescentou: “no modo de pensar, sejam  adultos”.
O culto cristão não será perfeito senão no céu, pois até então conheceremos a Deus como Ele é, e daí somente então teremos condições de adorá-lo de maneira própria.

FÉ: UMA CRENÇA ILÓGICA NO QUE NÃO SE PODE PROVAR?

Quisera saber se há outra virtude cristã mais mal compreendida do que  a fé. Comecemos com dois aspectos negativos.
Primeiro, fé não é credulidade. O americano H.L. , Menvhekn, crítico anti-sobrenaturalista do cristianismo, certa vez afirmou que “a fé pode ser  definida concisamente como sendo uma crença ilógica na ocorrência do  improvável”. Mas Mecken errou: Fé não é credulidade. Ser crédulo é ser  ingênuo, completamente desprovido de qualquer crítica, sem discernimento,  até mesmo irracional, no que crê. Porém é um grande erro supor que a fé e a  razão são incompatíveis. A fé e a visão são postas em oposição, uma à outra,  nas Escrituras, mas nunca a fé e a razão. Pelo contrário, a fé verdadeira é  essencialmente racional, porque se baseia no caráter e nas promessas de Deus.  O crente em Cristo é alguém cuja mente medita e se firma nessas certezas.
Em segundo lugar, fé não é otimismo. Nisso é que parece que Normam  Vicent Peale se confundiu. Muito do que ele escreveu é certo.
Sua convicção básica refere-se ao poder da mente humana. Ele cita William James, que disse  que “a maior descoberta desta geração é saber que os homens podem mudar  suas vidas alterando suas atitudes mentais” e Ralph Waldo Emerson, “o  homem é o que pensa durante todo o dia”. Assim, o Dr. Peale desenvolve sua  tese sobre o pensamento positivo, o qual ele acaba por igualar (erradamente)  com a fé. O que é precisamente essa “fé pela qual advoga?” Seu primeiro  capítulo do livro O Poder do Pensamento Positivo tem o significativo título de “Tenha Confiança em Si Mesmo”.
No capítulo 7 (“Espere sempre o Melhor e  Consiga-o”) ele faz uma sugestão que garante que dará certo. Leia o Novo  Testamento, diz ele, destaque “uma dúzia de conceitos sobre a fé, os que mais  gostar”, e procure memorizá-los. Que esses conceitos de fé permeiem sua  mente consciente. “Repita-os muitas vezes”. Eles se impregnarão em seu subconsciente e esse processo o transformará num crente”. Até que isto parece ser algo promissor. Mas, espere um pouco. Quando a Bíblia se refere  ao “escudo da fé”, prossegue ele, ela está ensinando uma “técnica de força  espiritual”, a saber, “fé, crença, pensamento positivo, fé na vida. Esta é a  essência da técnica que ela ensina”. O Dr. Peale prossegue citando alguns  versículos maravilhosos, tais como “se podes! Tudo é possível ao que crê”;  “se tiverdes fé ... nada vos será impossível”, e “faça-se-vos conforme a vossa  fé”. Mas, então ele estraga tudo, ao explicar este último texto da seguinte  maneira: “de acordo com a fé que você tiver em si mesmo, em seu emprego,  em Deus, é o que terá e não mais do que isso”.
Estas citações bastam para mostrar que o Dr. Peale aparentemente não  faz nenhuma distinção entre a fé em Deus e a fé em si mesmo. De fato, o que  ele demonstra é não se preocupar absolutamente com o objeto da fé. Ele  recomenda, como parte de seu sistema de acabar com as preocupações, que a  primeira coisa a fazer todas as manhãs, ao acordarmos e antes de nos  levantarmos, é dizer em voz alta “eu creio!” três vezes; mas ele não nos diz  em que devemos estar afirmando que cremos com tanta confiança e  insistência. As últimas palavras de seu livro são simplesmente “tenha, pois,  fé, e viverá feliz”. Mas fé em que? Crer em quem? Para o Dr. Peale a fé não  passa de mais uma palavra para exprimir autoconfiança, ou um exagerado e  não fundamentado otimismo. Ouvi dizer que o Dr. Peale mudou seu ponto-de-vista depois de Ter escrito este livro, mas o livro acha-se ainda em circulação,  e sendo lido. E nesse livro parece estar bem claro que o seu pensamento positivo é, no fim das contas, meramente um sinônimo para “fé naquilo que a  gente quer que seja verdade”.
O mesmo se pode dizer com relação ao Sr. W. Clement Stone, o filantropista e fundador de “Atitudes Mentais Positivas”. “De simples homens  comuns fazemos super-homens”, diz ele, pois desenvolveu “a técnica de  vendas para acabar com todas as técnicas de vendas”. Porque “você pode até  mesmo vender-se a si próprio, recitando da mesma maneira como fazem os  vendedores da AMP todas as manhãs: “estou contente, tenho saúde, sou o  máximo!
“Mas a fé cristã é bem diferente do “pensamento positivo” de Peale e  das “atitudes mentais positivas” de Stone. Fé não é otimismo.
Fé é uma confiança racional, uma confiança que, em profunda reflexão  e certeza, conta o fato de que Deus é digno de todo crédito.
Por exemplo,  quando Davi e seus homens voltaram a Zicagle, antes dos filisteus terem  matado Saul na batalha , um terrível espetáculo os aguardava. Na sua ausência  os amalequitas tinham saqueado a sua aldeia, incendiando as suas casas e  levado cativas as suas mulheres e crianças.
Davi e seus homens choraram “até  não terem mais forças para chorar” e então, na sua amargura, o povo cogitou  de apedrejar a Davi. Era uma crise séria e Davi facilmente poderia Ter-se  deixado cair no desespero.
Mas, em vez disso, lemos que “Davi se reanimou  no Senhor seu Deus”.
Esta era uma fé verdadeira. Ele não fechou seus olhos  aos fatos. Nem tentou criar sua própria autoconfiança, ou dizer a si mesmo  que se sentia realmente muito bem. Não. Ele se lembrou do Senhor seu Deus,  o Deus da criação, o Deus da aliança, o Deus que prometeu ser o seu Deus e colocá-lo no trono de Israel. E à medida em que Davi se recordava das promessas e da fidelidade de Deus, sua fé crescia e se fortificava. Ele “se  reanimou no Senhor seu Deus”.
Assim, pois, a fé e o pensamento caminham juntos, e é impossível crer  sem pensar. CRER É TAMBÉM PENSAR!
O Dr. Lloyd-Jones deu-nos um excelente exemplo neotestamentario desta verdade no comentário que fez de Mateus 6:30 em seus Studies in the  Sermon on the Mount (Estudos sobre o Sermão da Montanha): “Ora, se Deus  veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno,  quanto mais a vós outros, homens de pequena fé”?
A fé, de acordo com o ensinamento do nosso Senhor neste parágrafo, é  basicamente o ato de pensar, e todo o problema de quem tem uma fé pequena  é não pensar. A pessoa permite que as circunstâncias lhe oprimam... temos de  dedicar mais tempo ao estudo das lições de nosso Senhor sobre a observação  e dedução. A Bíblia está repleta de lógica, e seja algo meramente místico. Nós  não nos sentamos simplesmente numa poltrona, permanecendo à espera de  que coisas maravilhosas nos aconteçam. Isso não é fé cristã. A fé cristã é, em  sua essência, o ato de pensar. Olhem para os pássaros, pensem neles, e façam  suas deduções.
Vejam os campos, vejam os lírios silvestres, considerem essas  coisas...
A fé , se quiserem, pode ser definida assim: É insistir em pensar quando tudo parece estar determinado a nos oprimir e a nos pôr por terra,  intelectualmente falando. O problema com as pessoas de pequena fé é que  elas , ao invés de controlarem seus próprios pensamentos, os seus  pensamentos é que são controlados por alguma circunstância e, como se diz,  elas passam a rodar em círculos. Isso é a essência da preocupação...Isso não é  pensamento; isso é ausência completa de pensamento, é não pensar.
Antes de deixar este assunto, que trata do que compete à mente na fé  cristã, gostaria tão somente de abordar as duas ordenanças do Evangelho: o  batismo e a ceia do Senhor. Pois ambas são símbolos cheios de significado,  destinados a trazer bênçãos aos cristãos, despertando-lhes a fé nas verdades  que simbolizam. Consideremos a ceia do Senhor, por exemplo. Em seu  aspecto mais simples, é uma visível dramatização da morte do Salvador pelos  pecadores. É uma recordação racional daquele evento. Nossas mentes têm que  trabalhar em torno do seu significado e apropriar-se da certeza que nos  oferece. O próprio Cristo fala-nos através do pão e do vinho. “Morri por vós”,  diz ele, e ao recebermos sua palavra, ela deve trazer a paz a nossos corações culposos.
Desta forma, Thomas Cranmer escreveu que a ceia do Senhor “foi ordenada com este propósito, que toda pessoa dela participando, no comer e  no beber, se lembre de que Cristo morreu a seu favor, e exercite sua fé,  confortando-se na lembrança dos benefícios que Cristo lhe propiciou”.
A segurança cristã é a “plena certeza da fé”. E se a certeza de corre da  fé, a fé decorre do conhecimento , do seguro conhecimento de Cristo e do  Evangelho. Como o expressou o bispo J.C. Ryle: “Uma grande parte de  nossas dúvidas e de nossos temores provém de sombrias percepções do que  seja a real natureza do Evangelho de Cristo... a raiz de uma religião feliz é um  claro , preciso e bem definido conhecimento de Jesus Cristo”.

A BUSCA DA SANTIDADE

Muitos dos segredos da santidade nos são revelados nas páginas da  Bíblia. De fato, um dos objetivos principais da Escritura é mostrar ao povo de  Deus como levar uma vida que lhe seja digna e que lhe agrade. Porém um dos  aspectos mais negligenciados na busca da santidade é a parte que compete à  mente, conquanto o próprio Jesus tenha posto o assunto fora de qualquer  dúvida quando prometeu: “conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”.  É mediante a sua verdade que Cristo nos liberta da escravidão do pecado. De  que forma? Onde se encontra o poder libertador da verdade?
Para começarmos, precisamos Ter um quadro bem claro do tipo de pessoa que Deus pretende que sejamos. Temos de conhecer a lei moral de Deus e os mandamentos. Como o expressou John Owen: “o bem que a mente não é capaz de descobrir, a vontade não pode escolher, nem as afeições podem se apegar”... Portanto, “na Escritura o engano da mente comumente se  apresenta como o princípio de todo pecado”.
O melhor exemplo disso pode-se encontrar na vida terrena do nosso  Salvador. Por três vezes o diabo aproximou-se dele e o tentou no deserto da  Judéia. Nas três vezes Ele reconheceu se má a sugestão que lhe fizera Satanás  e contrária à vontade de Deus. Três vezes Ele se opôs à tentação com a  palavra grega ptai: “está escrito”. Jesus não deu margem a qualquer discussão  ou argumentação. A questão já estava decidida, logo de partida, em sua  mente. Pois a Escritura estabelecera o que é certo. Este claro conhecimento  bíblico da vontade de Deus é o segredo básico de uma vida reta.
Não basta sabermos o que deveríamos ser, entretanto. Temos de ir mais  além, resolvendo, em nossas mentes, a alcançá-la. A batalha é quase sempre  ganha na mente. É pela renovação de nossa mente que nosso caráter e comportamento se transformam. Assim é que, seguidamente, a Escritura nos  exorta a uma disciplina mental nesse sentido. “Tudo o que é verdadeiro”, diz  ela, “tudo o que respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é de boa fama, se  alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso  pensamento”.
De novo: “Se fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as  coisas lá do alto,  onde Cristo vive,  assentado à direita de Deus. Pensai nas  coisas lá do alto, não nas que são aqui  da terra; porque morrestes, e a vossa vida está oculta juntamente com Cristo,  em Deus.
De novo ainda: “Os que se inclinam para a carne cogitam das coisas da  carne; mas os que se inclinam para o Espírito, das coisas do Espírito. Porque o  pendor da carne dá para a morte, mas o do Espírito , para a vida e paz”.
O autocontrole é, antes de tudo, o controle da mente. O que semeamos  em nossas mentes, colhemos em nossas ações. “Ler É Viver” foi o lema de  uma recente campanha publicitária. É um testemunho do fato de que a vida  não consiste apenas em trabalhar, comer, dormir. A mente tem de ser também  alimentada. E o tipo de comida que nossas mentes receberem determinará que  tipo de pessoa seremos. Mentes sadias têm um apetite sadio. Temos de  satisfazê-las com alimento saudável, e não com drogas e venenos intelectuais  perigosos.
Há, entretanto, uma outra espécie de disciplina mental a que somos  convocados no Novo Testamento. Temos que considerar não somente o que  deveríamos ser, mas também o que, pela graça de Deus, já somos.
Devemos  constantemente nos lembrar do que Deus já fez por nós, e dizer a nós  mesmos: “Deus uniu-me com Cristo em sua morte e ressurreição, e assim  acabou com a minha velha vida e me deu uma vida completamente nova em  Cristo. Adotou-me em sua família e me fez seu filho. Pôs em mim seu  Espírito Santo, fazendo de meu corpo seu templo. Também tornou-se seu  herdeiro e prometeu-me um destino eterno, consigo, no céu. Isto é o que Ele  fez para mim e em mim. Isto é o que sou em Cristo”.
Paulo não se cansa de nos incitar a que deixemos nossas mentes pensar  nessas coisas. “Quero que saibais”, ele escreve. “Porque não quero, irmãos,  que ignoreis...”E cerca de dez vezes em suas cartas aos Romanos e Coríntios  ele profere esta pergunta incrédula: “Não sabeis...” “Não sabeis que todos os  que fomos batizados em Cristo Jesus, fomos batizados na sua morte?” Não  sabeis que daquele a quem vos ofereceis como servos para obediência, desse  mesmo a quem obedeceis sois servos...? “Não sabeis que sois santuários de  Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós?” “Não sabeis que os vossos  corpos são membros de Cristo?
A intenção do apóstolo nesta enxurrada de perguntas não é apenas fazer-nos sentir envergonhados por nossa ignorância. É antes fazer com que  nos dizem respeito, as quais de fato nos são bem conhecidas; e que falemos  entre nós sobre elas até o ponto em que se apoderem de nossas mentes e  moldem o nosso caráter. Não se trata do otimismo de autoconfiança de  Norman Vicent Peale, cujo método procura conseguir que façamos de conta  que somos algo que não somos. O método de Paulo é nos lembrar do que  realmente somos, porque assim nos fez Deus em Cristo.

A DIREÇÃO DADA AO CRISTÃO

É um fato incontestável que Deus quer dirigir o seu povo, e que Ele  disse é capaz. Isso é o que a Escritura nos ensina; em Suas promessas (por  exemplo, Prov. 3:6.”Ele endireitará as tuas veredas”), em Seus mandamentos  (por exemplo, mas procurai compreender qual a vontade do Senhor”); e em  suas orações (por exemplo, Col. 4:12:...”que vos conserveis perfeitos e  plenamente convictos em toda a vontade de Deus”).
Mas como descobrirmos a vontade de Deus? Há crentes que afirmam,  com certa facilidade, que “o Senhor me disse para fazer isto” ou “o Senhor  me chamou para fazer aquilo”, como se tivessem uma linha direta com o céu  e estivessem em permanente e direta comunicação telefônica com Deus. Acho  difícil acreditar em tais pessoas. Outros há que pensam receber minuciosa  direção de Deus fazendo as mais imaginativas interpretações de passagens  bíblicas, matando o sentido natural, violando o contexto e não tendo uma base  numa exegese segura, nem no senso comum.
Se queremos discernir a vontade de Deus para conosco, devemos começar fazendo uma distinção importante: sua vontade “geral” e sua vontade  “particular”. A vontade “geral” de Deus assim pode ser chamada por ser sua  vontade para com todo o seu povo em geral, em todas as épocas; ao passo  que, a vontade “particular” de Deus assim pode ser referida por ser sua  vontade para com pessoas em particular e em ocasiões específicas. A  vontade geral de Deus para conosco é que nos conformemos à imagem de seu  Filho. A vontade particular de Deus, por outro lado, refere-se a questões tais  como a escolha da profissão; a escolha do companheiro ou companheira na  vida; e como empregar nosso tempo, nosso dinheiro e nossas férias.
Uma vez feita essa distinção, achamo-nos em condições de repetir e responder aquela nossa pergunta sobre como descobrirmos a vontade de Deus . Pois a vontade geral de Deus foi revelada nas Escrituras. Não que seja sempre  fácil discernir Sua vontade nas complexas situações éticas modernas. Precisamos Ter princípios seguros para a interpretação bíblica. Precisamos  estudar, discutir e orar. Não obstante, continua sendo verdade, no que se  refere à vontade geral de Deus, que a vontade para com o Seu povo encontra- se na Palavra de Deus.
A vontade particular de Deus, por outro lado, não se encontra “pronta” na Escritura, pois a Bíblia não se contradiz, e é uma característica da vontade  particular de Deus que ela seja diferente para diferentes membros da sua  família. É claro que encontramos nas Escrituras princípios gerais que nos  orientam na tomada de nossas decisões em particular. E não nego que muitos  homens de Deus, pelos séculos a fora, afirmaram Ter recebido das Escrituras  uma direção detalhada. Todavia, devo repetir que está não é a forma de como  deus costumeiramente procede.
Considere, por exemplo, a questão do casamento. A Escritura lhe dará  uma direção em termos gerais. Ela lhe dirá que o casamento está nos planos  de Deus, e que uma vida de solteiro deve ser a exceção, não a regra; que um  dos objetivos principais do casamento é o companheirismo, e essa é uma das  qualidades a ser procurada na pessoa com que se casar; que como cristão você  tem a liberdade de se casar somente com quem seja também crente em Jesus;  e que o casamento (o compromisso total e permanente de um homem com  uma mulher) é o contexto ordenado por Deus no qual a união e o amor sexual  devem ser desfrutados. Estas e outras verdades vitais acerca da vontade geral  de Deus para com o casamento, a Escritura lhe mostrará. Mas a Bíblia não lhe  dirá se é a Clara, a Mara , a Sara ou a Nara aquela com quem você deverá se  casar!
Como então tomar uma decisão a respeito desta importantíssima questão? Há somente uma resposta possível: usando a mente e o senso comum que Deus lhe deu. Você certamente orará pedindo a direção de Deus.
E se você for sábio, pedirá o conselho de seus pais e de outras pessoas mais  velhas que o conhecem bem. Mas a decisão final é sua, na confiança de que  Deus o guiará no seu próprio raciocínio.
Há uma boa base bíblica, no Salmo 32:8-9, para o uso da mente dessa  forma. Estes dois versículos devem ser lidos em conjunto. Eles nos dão um  bom exemplo do equilíbrio que há na Bíblia. O versículo 8 contém uma  promessa quanto à direção de Deus: “Instruir-te-ei e te ensinarei o caminho  que deves seguir; e sob as minhas vistas , te darei conselho”. É, com efeito,  uma tríplice promessa: “instruir-te-ei,” “ensinar-te-ei,” e “dar-te-ei conselho”.  Mas o versículo 9 acrescenta imediatamente: “Não sejais como o cavalo ou a  mula, sem entendimento, os quais com freios e cabrestos são dominados; de  outra sorte não te obedecem”. Em outras palavras, embora deus prometa nos  guiar, não devemos esperar que o faça tal como guiamos cavalos e mulas.  Deus não porá um freio nem uma rédea em nós; pois não somos cavalos nem  mulas: somos seres humanos. Temos entendimento, o que mulas e cavalos  não têm.
É, pois, pelo uso de nosso próprio entendimento, iluminados pela Escritura e pela oração, recebendo o conhecimento de amigos, que Deus nos  guiará para conhecermos sua vontade particular para nós.
É urgente atentarmos a essa advertência da Escritura. Já vi muitos  jovens cristãos cometerem erros sérios e tolos por agirem sob algum impulso  irracional ou “por palpite”, em vez de se valerem poderiam fazer suas as  palavras de Bernard Baruch: “Todos os fracassos que tive, todos os erros que  cometi, todas as tolices que já vi por aí, tanto na vida pública como na  particular , foram a conseqüência de uma ação não pensada.”.

A APRESENTAÇÃO DO EVANGELHO

Em Romanos 10 Paulo argumenta convincentemente a favor da necessidade de se pregar o Evangelho para que as pessoas se convertam.
Os  pecadores são salvos, diz ele, por invocarem o nome do Senhor Jesus.
Isso é  muito claro. Mas como invocarão àquele em quem não creram? E como  crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão a respeito deles se  não há quem pregue? Ele concluiu o seu argumento dizendo:
“Assim , a fé  vem pela pregação e a pregação, pela palavra de Cristo”.
No seu argumento está implícito que nossa proclamação do Evangelho  tem de Ter um conteúdo sólido. É nossa responsabilidade apresentar de forma  completa a pessoa divina e humana de Jesus Cristo, e sua obra de salvação ,  de modo que por meio desta “pregação de Cristo” Deus desperte a fé no  ouvinte. Tal pregação evangelística está longe de sua trágica caricatura, tão  comum hoje em dia, a saber: um apelo emocional e anti-intelectual por  “decisões”, quando os ouvintes têm apenas uma confusa noção sobre o que  devam se decidir e por quê.
Convide-o a considerar o lugar da mente da evangelização, dando-lhe  duas razões do Novo Testamento para uma proclamação do evangelho, que  faça uso da mente.
        A primeira é tirada do exemplo dos apóstolos. Paulo resumiu o seu  próprio ministério evangelístico com as simples palavras “persuadimos aos homens”. Pois bem, a “persuasão” é um exercício intelectual. “Persuadir” é  dispor argumentos de forma a prevalecer sobre as pessoas, fazendo-as mudar  de idéia com respeito a alguma coisa. E o que Paulo declara fazer é ilustrado  por Lucas nas páginas de Atos. Ele nos diz , por exemplo, que por três  semanas na sinagoga em Tessalônica Paulo “dissertou entre eles , acerca das  Escrituras, expondo e demonstrando Ter sido necessário que o Cristo  padecesse e ressurgisse dentre os mortos” e dizendo “este é o Cristo, Jesus ,  que eu vos anuncio”. O resultado, Lucas acrescenta, foi que “alguns deles foram persuadidos”. Pois bem, todos os verbos que Lucas emprega aqui, descrevendo o ministério evangelístico de Paulo - disserta , expor, demonstrar, anunciar e persuadir - são , até certo ponto, verbos “Intelectuais”.  Indicam que Paulo ensinava um corpo de doutrina e dissertava em direção a  uma conclusão. Seu objetivo era convencer para converter. E o fato de que  depois de uma campanha, muitas vezes dizemos “graças a Deus alguns se  converteram”, é um sinal de que fugimos um pouco do vocabulário  neotestamentário. Seria igualmente bíblico, se não mais, dizermos “graças a  Deus alguns foram persuadidos”. Pelo menos isso foi o que Lucas disse  depois da missão de Paulo em Tessalônica.
As longas permanências de Paulo em algumas cidades, notadamente em  Éfeso, é explicável pela natureza persuasiva de sua pregação do evangelho.  Nos três primeiros meses que lá passou Paulo freqüentou a sinagoga, onde  “falava ousadamente, dissertando e persuadindo , com respeito ao reino de  Deus”. Depois apartou-se da sinagoga “passando a discorrer diariamente na  escola de Tirano” local que possivelmente teria sido um salão de conferência  secular, alugado por ele para esse fim. Alguns manuscritos acrescentam que  suas palestras iam da hora Quinta a décima, ou seja, das onze da manhã às  quatro da tarde. E “durou isto”, Lucas nos informa, “por espaço de dois anos”.  Admitindo que Paulo trabalhasse seis dias por semana , as cinco horas diárias em que passava pregando persuasivamente o evangelho totalizando cerca de 3.120 horas. Não é de se surpreender, ainda, que, em conseqüência, Lucas  diz: “todos os habitantes da Ásia ouviram a palavra do Senhor”.
Quase todo o  mundo certamente teria que passar por lá, mais cedo ou mais tarde, por causa  de alguma compra, ou para consultar um médico, ou um advogado ou um  político, ou ainda para visitar um parente. E, evidentemente, um dos atrativos  da cidade era ir ouvir o pregador cristão Paulo. Podia-se ouvi-lo a qualquer  dia. Muita gente foi vê-lo, e foi persuadida da verdade de sua mensagem,  voltando nascidos de novo às suas vilas de origem. Assim a palavra de Deus  espalhou-se por toda a província.
A Segunda evidência que o Novo Testamento nos dá de que a evangelização deve ser uma proclamação da boa nova fazendo uso do raciocínio é que a conversão, não poucas vezes, é descrita em termos da resposta de alguém não a Cristo propriamente, mas à “verdade”. Tornar-se cristão é “crer na verdade”, “obedecer à verdade”, “reconhecer a verdade”.  Paulo chega até a referir-se a seus leitores romanos dizendo “viestes a  obedecer de coração á forma de doutrina a que fostes entregues”. É evidente,  por essas expressões, que, ao pregarem a Cristo, os evangelistas da igreja  primitiva ensinavam um corpo de doutrina acerca de Cristo.
Há , porém, objeções a esta minha tese quanto ao evangelismo.
Primeiramente, pode-se perguntar , essa evangelização racional que  advogo não estará a serviço do orgulho intelectual das pessoas?
Certamente  isso é possível. Temos que nos precaver contra esse perigo.
Ao mesmo tempo  há uma diferença substancial entre adular a vaidade intelectual de alguém (o  que não devemos fazer) e respeitar sua integridade intelectual (o que temos de  fazer).
Em segundo lugar, essa apresentação do evangelho com persuasão intelectual não faz discriminação, impedindo que as pessoas de baixo nível  cultural recebam o evangelho? Não, não faz. Ou, pelo menos, não deveria  fazer. Assim como Paulo, somos compromissados ou “somos devedores”,  tanto a sábios como a ignorantes”. O evangelho é para todos, independentemente do nível de escolaridade. E o tipo de evangelização que defendo, que  apresenta Jesus Cristo em sua plenitude, é importante a toda classe de pessoa,  sejam crianças ou adultos, cultas ou incultas, indígenas do Amazonas ou  intelectuais da universidade. É que a apresentação por esta forma de  evangelização não é uma apresentação acadêmica (calcada em termos  filosóficos ou num vocabulário complicado), mas sim racional. E as pessoas  de baixo nível cultural respondem à razão da mesma forma que as doutas.  Suas, mentes talvez não tenham sido exercidas a pensar de uma maneira  determinada, e é certo que deveríamos observar a diferença que Marshall  McLuhan e seus seguidores fazem, distinguindo o pensamento linear do não- linear. De qualquer forma, aquelas pessoas ainda pensam. Todos ser humano  pensa, pois Deus criou o homem como um ser pensante. O ensinamento do  próprio Jesus, embora maravilhosamente simples, certamente fez com que seus ouvintes pensassem. Ele lhes apresentou verdades importantes acerca de Deus e do homem, sobre si mesmo e o Reino, sobre esta vida e a próxima.
E  com freqüência terminava suas parábolas com uma incomodativa pergunta,  forçando seus ouvintes a tomarem uma decisão com respeito ao ponto em  discussão.
Nosso dever então é evitar distorcer ou diluir o evangelho, e, ao mesmo  tempo, apresentá-lo de forma bem clara, manejando bem a palavra da  verdade, de forma que as pessoas venham a aceitá-la, para não acontecer  conforme as palavras de Jesus: “a todos os que ouvem a palavra do Reino e  não a compreendem, vem o maligno e arrebata o que lhes foi semeado no  coração”. Creio que ás vezes são as nossas explicações “por alto” que dão ao  diabo precisamente esta oportunidade, que nunca se lhe deveria dar.
Em terceiro lugar, a pregação do evangelho com argumentação racional  não usurpa o trabalho do Espírito Santo, fazendo com que na prática o  dispensemos? Bem, é claro que sem o poder do Espírito Santo a evangelização é impossível. Todavia, é um grande erro pensar que é uma característica da autoconfiança ou da falta de fé dar um conteúdo de doutrina  às boas novas, e valer-se de argumentos para demonstrar a verdade e a  relevância do evangelho; e que basta Ter mais fé no Espírito Santo para  podermos omitir toda doutrina e argumentação. Na verdade o contrário disso  é que é certo. É uma falsa antítese essa a de se contrapor ao Espírito Santo a  apresentação do evangelho que faça uso da razão.
O que Paulo renunciara, disse ele aos coríntios, fora a sabedoria do  mundo (como matéria de sua mensagem) e a retórica dos gregos (como  método de apresentação). Em vez da sabedoria deste mundo, resolveu pregar  a Cristo, este crucificado; no lugar da retórica, optou por confiar no poder do  Espírito Santo. Mas Paulo ainda se valia da doutrina e da argumentação.
Gresham Machen expressou admiravelmente esta questão em seu livro  The Christian Faith in the Modern World (A Fé Cristã no Mundo Moderno):  “O misterioso trabalho do Espírito Santo tem mesmo que acontecer no novo nascimento”, escreveu. “Do contrário, todos os nossos argumentos são  completamente inúteis. Mas não podemos concluir que os argumentos sejam  desnecessários, pelo simples fato de serem insuficientes. O que o Espírito  Santo faz no novo nascimento não é transformar a pessoa num cristão sem dar  atenção à evidência, mas, pelo contrário, dissipar a névoa de seus olhos, de  forma que possa ver e responder à evidência.
Wolfhart Pannenberg, o jovem professor de Teologia Sistemática de  Munique, escreveu algo similar em seu livro “Basic Questions in Theology”  (“Questões Teológicas Fundamentais”): “Uma mensagem não convincente ,  como alternativa, não é capaz de alcançar o poder de convencer  simplesmente apelando ao Espírito Santo... A argumentação e a operação do  Espírito não são mutuamente exclusivas. Ao confiar no Espírito, Paulo de  forma alguma dispensou-se de pensar e argumentar”.
Assim, pois , em nossa proclamação do evangelho, temos que nos dirigir à pessoa toda (mente, coração e vontade) com o evangelho todo (Cristo  encarnado, crucificado, ressurreto, soberano, sua Segunda vinda e muito mais  ainda). Deveremos argumentar com sua mente e apelar fervorosamente a seu  coração para que mova a sua vontade,  estando nossa confiança depositada no  Espírito Santo do começo ao fim. Não nos é dada a liberdade de apresentar  Cristo parcialmente (como homem mas não como Deus, sua vida e não sua  morte, sua cruz mas não sua ressurreição,  como Salvador mas não como  Senhor). Nem ainda temos o direito de pedir uma resposta parcial (da mente  mas não do coração, do coração mas não da mente, ou da mente ou do  coração mas não da vontade). Não. Nosso objetivo é ganhar o homem todo  para o Cristo total, e para isso é necessário o completo consentimento de sua  mente, coração e vontade.
Oro insistentemente que Deus levante hoje uma nova geração de apologistas cristãos, pessoas que comuniquem a mensagem cristã, tendo uma  absoluta fidelidade ao evangelho bíblico, e uma inabalável confiança no poder  do Espírito , combinada com um entendimento profundo e sensível às  alternativas contemporâneas do evangelho; pessoas que se relacionem com as  demais com vivacidade, ardor, autoridade e propriedade, pessoas que façam  us9 de suas mentes para ganharem outras mentes para Cristo.

O MINISTÉRIO E SEUS DONS

Meu sexto e último exemplo quanto ao lugar da mente é o ministério  cristão. Temos que usar nossa mente qualquer que seja o ministério, mas  especialmente no ministério ordenado ou pastoral da igreja.
Hoje em dia há um renovado interesse no tema do ministério e nos carismata (dons do Espírito) que qualifiquem e dão condições ao povo de Deus para exercer o seu ministério. Todos os dons espirituais (e são muitos)  destinam-se a algum tipo de ministério. São dados para serem exercidos  “visando um fim proveitoso”, tendo como propósito edificar a igreja, o corpo  de Cristo, de forma a crescer até a maturidade. Os dons que mais devem ser  procurados e apreciados, portanto, são os dons do ensino, já que é por meio  deles que a igreja é mais “edificada”.
Este Dom do ensino é, sem dúvida , necessário aos presbíteros, que tem  cuidado pastoral para com a igreja local. Vamos abordar rapidamente tanto a  natureza de seu ministério como também as qualificações que lhes são  necessárias.
O ministério “pastoral” é essencialmente um ministério de “ensino”.  Vou esclarecer isso. O ministro é um pastor, designado por Cristo, o Sumo  Pastor, para cuidar de parte do seu rebanho, tendo em particular a  responsabilidade de alimentar as ovelhas (ou seja , ensiná-las).
Assim, pois, o apóstolo Paulo podia dizer aos presbíteros-bispos da  igreja em Éfeso: “Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o  Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus, a  qual ele comprou com o seu próprio sangue’.
E o apóstolo Pedro, que por três vezes fora pessoalmente comissionado  pelo Senhor ressurreto a cuidar ou alimentar suas ovelhas e cordeirinhos, mais  tarde escreveu a outros presbíteros dizendo:
“Pastoreai o rebanho de Deus que  há entre vós...”
“Deixando de lado a metáfora do pastor, a maior responsabilidade dos  presbíteros locais é: “apresentar todo homem perfeito em Cristo”.
E, para  alcançar este objetivo, devem proclamar a Cristo em sua plenitude,  “advertindo a todo homem e ensinando a todo homem em toda a sabedoria”. É pelo conhecimento de Cristo, tal como o apresentam as Escrituras e o  proclama o ministério, que os cristãos alcançam maturidade espiritual.
As qualificações para o ministério são consistentes com sua natureza.  Todo candidato ao ministério pastoral ou ao presbiterato deve possuir tanto  a fé bíblica como o Dom de ensiná-la. Deve ser ortodoxo. “Apegado à palavra  fiel que é segundo a doutrina (literalmente: segundo o didaquê, ou o ensino  dos apóstolos), de modo que tenha poder assim para exortar pelo reto ensino  como para convencer os que contradizem”. Deve ser ainda “apto para  ensinar”. Esta são duas qualificações que lhe são indispensáveis. Deve ser fiel  à didaquê e ser didaktikos, um professor que sabe transmitir e que tem o reto  ensino.
Isso o obrigará a estudar , tanto em sua preparação ao ministério como  durante o seu exercício. É impressionante que aos que querem se recomendar  a si próprios como ministros de Deus, Paulo escreve, devem fazê-lo não  somente através de sua paciência nas tribulações, nem somente através de sua  pureza, privação, bondade e amor, mas também através de seu saber.
Sou muito grato ao Dr. Billy Graham por ouvi-lo dizer, numa preleção  em Londres dirigida a cerca de 600 ministros, em novembro de 1970, que se  tivesse que recomeçar o seu ministério de novo, estudaria três vezes do que  estudou. “Tenho pregado muito e estudado tão pouco”, disse ele. No dia  seguinte ele me contou uma afirmativa feita pelo Dr. Donald Barnhouse: “Se  me fossem dados apenas três anos para servir ao Senhor, passaria dois desses  três anos estudando e me preparando”.
Eu mesmo estou cada vez mais ansioso por ver Deus chamar, nos dias  de hoje, mais pessoas para este ministério do ensino; pessoas com mentes  atentas, convicções bíblicas e aptidão para ensinar; colocando-as nas cidades  grandes e importantes, e nas cidades universitárias deste mundo; de forma que  , à semelhança de Paulo na escola de Tirano em Éfeso, nesses lugares  exerçam um ministério de ensino sistemático e persuasivo, expondo as velhas  Escrituras e aplicando-as ao mundo moderno; e que tal ministério fiel,  debaixo da boa mão de Deus, não somente conduza sua própria congregação  até o ponto da maturidade em Cristo, mas também espalhe sua bênção por  toda parte, através dos visitantes que por pouco tempo venham a receber sua influência.

APLICANDO O NOSSO CONHECIMENTO

No começo deste livrinho mencionei o risco de se cair no extremo  oposto, ou seja, o perigo de uma reação exagerada, passando-se de um estéril  anti-intelectualismo a um super-intelectualismo igualmente estéril.  Evitaremos facilmente esse perigo se nos lembrarmos de apenas uma coisa:  Deus não pretende que o conhecimento seja um fim em si mesmo, mas sim  que seja um meio para se alcançar algum fim.
Tentei abordar rapidamente seis esferas da vida cristã nas quais a mente  desempenha um papel importante: o culto, a fé, a santidade, a direção, a  evangelização e o ministério cristão. Sendo tais coisas impossíveis se não  usarmos as nossas mentes e se não adquirirmos algum conhecimento, é-nos  mister admitir o corolário, que a aquisição de conhecimento bíblico deve nos  levar a essas coisas e enriquecer nossa experiência quanto às mesmas.
O conhecimento traz consigo a solene responsabilidade de aplicarmos esse conhecimento que temos, ou seja, agirmos de forma que lhe seja  compatível. Vou esclarecer mais este ponto.
Em primeiro lugar, o conhecimento deve conduzir à adoração. A conseqüência de nosso verdadeiro conhecimento de Deus não será nos empavonarmos, cheios de orgulho pela sabedoria que temos, mas sim nos submetermos a Ele com plena admiração, exclamando: “Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria, como do conhecimento de Deus. Quão insondáveis são os seus juízos e quão inescrutáveis os seus caminhos!”
Sempre que nosso conhecimento se torna árido ou acaba com o nosso entusiasmo e nos deixa frios, alguma coisa de errado aconteceu. Pois toda vez  que Cristo nos expõe as Escrituras e dEle recebemos algum ensinamento, nos  deve arder o coração. Quanto mais conhecemos a Deus, mais devemos amá-lo.  Creio Ter sido o bispo Handley Moule quem disse que deveríamos nos  precaver tanto contra uma teologia sem devoção como também contra uma  devoção sem teologia.
Em segundo lugar, o conhecimento deve conduzir à fé. Já vimos que a  fé se fundamenta no conhecimento, e é este que a torna racional.
“Em ti, pois,  confiam os que conhecem o teu nome”, escreveu o salmista.
É precisamente  o nosso conhecimento da natureza e do caráter de Deus que suscita a nossa fé.  Mas se é que não podemos crer sem conhecimento, também não devemos  conhecer sem crer. Isto é: nossa fé tem de se apoderar de toda a verdade que  nos seja revelada por Deus. Na verdade, a mensagem de Deus não traz  benefício algum, a menos que encontre fé nas pessoas que a ouvem. Por esse  motivo é que Paulo não somente ora, no sentido de que os olhos do nosso  coração sejam iluminados para sabermos qual é a suprema grandeza do poder  de Deus, demonstrada na ressurreição; mas também acrescenta que este poder  que Deus exerceu em Cristo é disponível para nós que cremos. O primeiro  passo necessário é sabermos em nossas mentes qual é a magnitude do poder  de Deus, mas isto deve conduzir-nos a apropriarmos pela fé esse poder em  nossas vidas.
Em terceiro lugar, o conhecimento deve conduzir à santidade. Já consideramos alguns meios pelos quais nossa conduta se transformaria se tão  somente soubéssemos com maior clareza o que deveríamos ser e o que somos.  Mas agora temos que ver como cada vez mais se torna maior a nossa responsabilidade de pôr nosso conhecimento em prática, à medida que ele se  amplia. Poderia citar muitos exemplos bíblicos. O Salmo 119 está repleto de  aspirações por conhecer a lei de Deus. Por que? Para obedecê-lo melhor: “Dá- me entendimento e guardarei a tua lei; de todo o coração a cumprirei”. Disse  Jesus, o Senhor, aos doze: “Se sabeis estas coisas, bem-aventurados sois se as  praticardes”. Paulo escreveu: “O que também aprendeste, e recebestes , e  ouvistes em mim, isso praticai”. E Tiago dava ênfase ao mesmo princípio ao  rogar a seus leitores que fossem “praticantes da palavra , e não somente ouvintes” advertindo-os de que a fé sem obras é uma ortodoxia morta, que até  os demônios aceitam.
O ministro puritano Thomas Manton, que outrora foi o capelão de Oliver Cromwell, comparou o cristão desobediente a uma criança que sofre de  raquitismo. “O raquitismo torna as cabeças grandes e os pés fracos. Não  apenas devemos discutir quanto à palavra, e falar a respeito dela, mas também  guardá-la. Não sejamos nem só ouvidos, nem só cabeça, nem só língua, mas  os pés têm de se exercitar!”
Em quarto lugar, o conhecimento deve conduzir ao amor. Quanto mais  sabemos, mais devemos compartilhar do que sabemos com os outros e usar o  nosso conhecimento em serviço a eles, seja na evangelização, seja no  ministério. Às vezes, porém, nosso amor poderá moderar o nosso conhecimento. Pois o conhecimento em si pode ser ríspido; é-lhe necessário  Ter a sensibilidade que o amor lhe pode dar. Foi isso o que Paulo quis dizer  quando escreveu: “O saber ensoberbece, mas o amor edifica”. O “senhor do  saber” de quem ele fala é o cristão instruído, sabedor de que há um só Deus,  de que os ídolos nada são, e que portanto não há razão teológica alguma pela  qual não deva comer uma comida que fora anteriormente oferecida a ídolos.  Entretanto, pode haver um motivo de ordem prática para dela se abster. É que  alguns cristãos não têm tal conhecimento e, em conseqüência, suas  consciências são “fracas”, ou seja, não instruídas e excessivamente  escrupulosas. Anteriormente eles próprios haviam sido idólatras. E, mesmo  depois de sua conversão, acham que, em sã consciência, não podem comer  tais carnes. Estando com eles, então, Paulo argumenta: o cristão “forte” ou  instruído deve abster-se para não ofender a consciência “fraca” de seus  irmãos. Ele mesmo tem a liberdade de consciência para comer. Porém o seu  amor limita a liberdade que o conhecimento lhe dá. Talvez seja contra tais circunstâncias que Paulo chega a dizer, em alguns capítulos adiante:
“Ainda  que eu ... conheça todos os mistérios e toda a ciência ... se não tiver amor, nada  serei”.
Prestemos atenção a essas advertências. O conhecimento é indispensável à vida e ao serviço cristãos. Se não usamos a mente que Deus  nos deu, condenamo-nos à superficialidade espiritual, impedido-nos de  alcançar muitas das riquezas da graça de Deus. Ao mesmo tempo, o conhecimento nos é dado para ser usado, para nos levar a cultuar melhor a  Deus, nos conduzir a uma fé maior, a uma santidade mais profunda, a um  melhor serviço. Não é de menos conhecimento que precisamos, mas sim de mais conhecimento, desde que o apliquemos em nossa vida.
A pergunta de como tal conhecimento pode ser obtido, a melhor resposta que posso dar é com palavras de um dos sermões de Charles Simeon: “Para a obtenção e conhecimento divino, a orientação que temos é a de  combinar uma dependência do Espírito de Deus com nossas próprias pesquisas. Que não nos atrevamos a separar então o que Deus uniu”. Isso quer  dizer que temos de orar e temos de estudar. É como foi dito a Daniel: “Não  temas, Daniel, porque desde o primeiro dia, em que aplicaste o coração a  compreender e a humilhar-te perante o teu Deus, foram ouvidas as tuas  orações...”De fato, a disposição mental para compreender , a humilhação de si  mesmo perante Deus são sinais do ardente desejo de quem quer alcançar a  verdade divina. Tal desejo certamente será satisfeito. Pois deus prometeu a  quem O buscar com seriedade:
Filho meu, se aceitares as minhas palavras, e esconderes contigo os  meus mandamentos, para fazeres atento à sabedoria o teu ouvido, e para  inclinares o teu coração ao entendimento; e se clamares por inteligência, e  por entendimento alçares a tua voz; se buscares a sabedoria como a prata, e  com a tesouros escondidos a procurares; então entenderás o temor do  Senhor, e acharás o conhecimento de Deus. Porque o Senhor dá a sabedoria,  da sua boca vem a inteligência e o entendimento.
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